Um tour pelo centro de SP com o pichador Djan Cripta

As fotos deste ensaio foram produzidas por Leila Fugii

 

“A gente se encontra na frente da Galeria do Rock. Perto do Largo do Paissandu. Por lá, tem uns pixos meus”. Este foi o marco inicial do tour pelo centro de São Paulo que a equipe d’O Beijo fez com o pichador paulista Djan Ivson Cripta.

A forma como ele se identifica diz muito sobre sua trajetória. Os dois primeiros nomes estão em sua certidão de nascimento. O último, ganhou nas ruas. Designa o grupo de pichadores que participa.

Com 32 anos, 20 de prática, uniu à paixão pelo spray à produção audiovisual e, agora, junto com outros pichadores (Rafael Angustaitz – conhecido como PixoBomb e Opus 666 – e Marcos Mac – vulgo Vó e Kamikaze) discute as intersecções da pichação com a Arte. 

 

 

 

Cripta caminha no centro de São Paulo como estivesse na casa de um grande amigo. A relação é antiga. Data de 1998, quando fez suas primeiras incursões na região para pichar. As caminhadas (e correrias) durante a noite o fizeram íntimo das ruas estreitas e grato às vias largas.

“Antes da pichação, eu vinha no centro e fazia só um caminho. Depois, passei a conhecer a região inteira. A explorar todos os lugares, as ruas, e a ter bastante conhecimento mesmo”, explica.

Em um prédio com uma de suas pichações, perto da rua Aurora, ele deixa de lado o semblante fechado. Explica com paciência o formato de suas letras. Diz que aquela inscrição em especial é influenciada por uma viagem e amigos que fez na Alemanha. Entre uma letra e outra, há enfeites que dificultam (mais ainda) a leitura das inscrições. 

 

 

 

 Na passarela do Terminal Bandeira, aponta para um pixo feito em 2000. Oito anos depois, ele e mais um grupo de pichadores se tornariam notícia por ocuparem a 28ª edição da Bienal de Artes de São Paulo. Esta e outra ação, realizada no Centro Universitário de Belas Artes, deflagrariam a discussão extra-criminal sobre a pichação.

“Nossa ação foi, na época, se encaixar justamente no esquema curatorial. O curador veio a público dizer que ia ter um espaço vazio dedicado a intervenções urbanas. A gente se sentiu convidado e fomos lá justamente para fazer isso”, justifica.

Sobre a sua produção neste outro circuito, explica: “Não é o pixo propriamente dito. É uma representação daquilo, feita por alguém que tem legitimidade. A intenção é ser um pichador dentro do campo da Arte. É entrar e jogar o jogo, para mostrar o potencial estético da pichação”. 

 

 

 

Na Ladeira da Memória, último ponto da jornada, fala do passado. Diz que no fim da década de 90, o point  -- reunião semanal de pichadores – funcionava ali. “Ficava cheio, tinha gente nas escadas, na calçada (parte superior acima do chafariz). Mas logo veio a repressão e a gente teve que sair”.

Na beira de um banco de cimento, onde um garoto loiro de dreads dorme, termina a entrevista contando porque ainda se mantém na ativa: “O tempo topo, a gente vive rodeado de regras. Tem regra pra tudo. E a gente obedece. Eu só mudo isso quando estou pichando. É o único momento que eu me sinto livre”. 

(Pichadores e defensores da prática escrevem 'Pichação" com x. A transgressão ortográfica indica um movimento política que vai muito além dos registros nos muros).

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