"O teatro expurga a vida que a gente recusa"

 

A dramaturga Silvia Gomez abriu as portas de casa para o site O Beijo (Créditos: Leila Fugii)


Quando o diretor, ator e dramaturgo Mário Bortolloto foi assistir à peça Mantenha fora do alcance do bebê, algo lhe saltou aos olhos e ouvidos. Era o texto de Silvia Gomez que estava ali, pulsando da boca da personagem de Débora Falabella e reverberando do palco do Centro Cultural São Paulo, em junho.

Depois disso, não demorou mais do que algumas horas para que Bortolloto escrevesse em sua página no Facebook: "Pq ela sabe escrever. Pq ela é boa dramaturga. Pq ela tem a manha", disse ainda trópego pelo enredo criado por essa jovem dramaturga nascida em Minas Gerais e residente em São Paulo desde 2001.

Sobrinha da atriz e diretora Yara de Novaes, herdou de pequena, o gosto pelo burburinho das coxias à alquimia que se dava no tablado. Na adolescência, resolveu, então, estudar jornalismo na UFMG e, pela noite, fazer um curso de teatro. Chegou a colocar a timidez à prova como atriz, mas preferiu rabiscar suas próprias histórias. Aos 20 anos, escreveu a primeira peça: Os quatro e a falta. Sobre o assunto, entrega um acanhamento pela estreia.
 

Me sinto pelada ao ver meu texto ali, no palco. Ao mesmo tempo, tenho orgulho por ter me exposto. Adoro ouvir o que as pessoas falam depois, o que pensaram. 
 

Ao chegar à capital paulista, para um estágio de jornalismo, não quis abortar o plano B: a dramaturgia. Entrou no Centro de Pesquisa Teatral (CPT) depois de apresentar um texto já inscrito para um festival de peças curtas promovido pelo Grupo Galpão (MG).

Com a peça Cada dia a vida fica mais curta - sobre duas amigas que se (re) encontram ao longo da vida - chegou ao CPT, onde, por oito anos, apreendeu um fazer teatro assinado por Antunes Filho. "A grande diferença do CPT é ter este olhar de buscar o petróleo, como o Antunes chama. Um olhar que vai fundo e não fica nos estereótipos."

Difícil é lutar contra a tendência de ser maniqueísta. Isso passa pelo nosso próprio moralismo. A gente é cheia de contradição e este universo novo que criamos vem deste mergulho na gente. 
 
 

Lá escreveu e montou a primeira peça O céu cinco minutos antes da tempestade, pela qual foi convidada para um festival de leitura de peças em Madrid (Espanha), no mês de outubro. Na época, O céu (...) foi dirigida por Eric Lenate. Uma parceria que se repetiu, anos depois, em Mantenha fora do alcance do bebê.  

(Créditos: Leila Fugii)

 

Sempre escrevi intuitivamente. Quando escrevo não sei no que vai dar. Parece que sempre começo do zero. É sempre um salto no abismo. Esta também é a graça. 
(Créditos: Leila Fugii)


Jornalista e mãe nas horas cheias e dramaturga nas horas vagas, ela se sobressai em uma leva de jovens autores que não querem olhar para trás e lamber cânones das artes cênicas. Mas sim, criar algo novo, algo que interfira, faça pensar ou mesmo que cause certo mal estar, num primeiro momento, mas que possa bulir com o espectador. Um rechaçar da passividade.

"Temos obrigação de falar das coisas que incomodam. A raiva faz parte deste processo até porque a cena nasce do conflito. Tenho um cotidiano caretinha, sou obediente, bem certinha, mas quando eu escrevo acontece de ficar violento. Essa raiva vem da observação, das coisas que me incomodam. Se está tudo bem, por quê escrever uma peça?" 

Com os dois pés fincados no agora, Silvia escreve sobre questões e angústias contemporâneas apesar, ela diz, de amar escritores e obras que a alimentam. Entre os temas que anota como se fossem post its mentais, estão: questões que envolvem a mulher e imigrantes, além de uma sociedade de consumo. Ela mesma assume sentir a ansiedade que reflete uma geração solicitada continuamente pelas mídias sociais. "É como se eu não fosse suficiente para o mundo", desabafa. 

Enquanto toma um café, prepara o filho para o colégio e sai para o próximo expediente, no papel de jornalista, Silvia já pensa na próxima peça. Sem abandonar a mineirice, prefere guardar segredo sobre qual será o próximo soco no estômago a ser levado ao teatro. Adianta apenas que será para o ano que vem. E que suas inquietações, mais uma vez, serão expurgadas.  
 

(Créditos: Leila Fugii)

 


Na dramaturgia de hoje, muita gente boa já sacou que tem que deixar o espectador fazer parte da obra. Não fechar significados e não subestimar o universo interno de quem vê.
 
(Créditos: Leila Fugii)

 

A arte não responde nada, mas ajuda a fazer perguntas. Se eu der sorte, um dia encontro uma resposta sobre o mundo ao meu redor. Se der mais sorte ainda, encontro uma resposta sobre mim mesma. 
 
(Créditos: Leila Fugii)
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