"Sempre achei a arte um lugar de libertação"

Clarice Niskier pelas lentes da fotógrafa Leila Fugii horas antes de entrar no palco para "A Alma Imoral" 


"É quarta-feira. Acordo. Faço a mala. Deixo tudo esquematizado... Geladeira cheia. Supermercado feito. Agenda do meu filho em ordem. Pagamentos feitos. Meu marido também me ajuda a organizar as coisas de casa. É ele quem toca o barco no Rio de Janeiro, enquanto eu fico em cartaz de quarta a domingo em São Paulo. Vou para o aeroporto Santos Dumont. Tomo um café. Chego em SP. Almoço. Se puder, descanso, senão venho ao teatro dar uma entrevista... "

À maneira da protagonista de A Lista, Clarice Niskier organiza o pensamento e toma um café com O Beijo, no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Atriz, mãe, diretora, amiga, filha e esposa, ela vai tricotando as tarefas diárias sem deixar a apatia da rotina modificá-la. Como espectadores, nos impressionamos com a coreografia de ações que a toma por inteiro por cinco dias da semana: todos, em um tablado.

(...) sinto que todo dia que piso neste tablado, estou inserida em algo misterioso e estou cada vez mais encarnada neste mistério.

Em cartaz com os monólogos A Lista e A Alma Imoral, Clarice assume a linha de frente com uma equipe fiel nos bastidores. E para não se perder em meio a enredos e emoções distintas, reserva preciosas horas ao pilates, à acupuntura e à meditação. "Minha rotina é esta instabilidade instável. Não sei explicar. É instável porque se trata de teatro, uma matéria perecível. O dia de ontem é de ontem, não consigo repetir", reflete. 

(Créditos: Leila Fugii)

Dos 34 anos dedicados a uma carreira no teatro, no cinema e na televisão, Clarice se aperfeiçou, sem dúvidas, na modalidade solo. No palco, plenitude e solidão se combinam quando lhe perguntamos sobre o fato de se manter em cartaz há dez anos com A Alma Imoral. Década que se completa em 2016, com direito a uma programação especial de leituras dramáticas e depoimentos. 

Mas, até conseguir manter por tanto tempo um público ávido pelo denso texto do rabino Nilton Bonder, a atriz já havia pisado neste terreno nos anos 1990 com Um Ato para Clarice: uma coletânea de textos de Clarice Lispector. 

"Tudo é um processo. A imagem mais perfeita que a natureza nos traz é a da nascente de um rio que vai seguindo até desembocar no oceano. Quando você faz o primeiro monólogo, você é muito tímida, não tem experiência. Depois, encontra um excelente diretor, ator, eles vão dizendo coisas, você cai e se levanta. Aprende a se desviar das pedras, vai criando volume e quando vê, está no segundo, terceiro, quarto monólogo... Está há dez anos com o mesmo monólogo. Rumo ao oceano. Mas tudo começa com um filete de desejo", descreve.

(Créditos: Leila Fugii)

Recentemente, Clarice voltou a se encontrar com Lispector. Ao ler uma entrevista da escritora com Hélio Pellegrino, se deu conta do que faz todos os dias ao vestir um personagem. "Ser com o outro. É isso. Eu experimento isso no monólogo. Para que eu seja, eu preciso tomar pé desta solidão gigantesca que somos, desse medo, desse abismo. Ser está neste lugar e se completa ao se encontrar diante do outro. O outro é que diz para você milhões de coisas importantes: agradáveis e desagradáveis. É esse outro empresta este olhar para você se reconhecer. Se afirmar", constata.

(...) sempre tive a sensação de que o teatro me ensinava também a ser mais verdadeira na vida. Eu superava meus medos, minha timidez. Sempre achei que a arte era um lugar de libertação. 
(Créditos: Leila Fugii)

Apesar de recolher-se como uma "religiosa", como ela mesma se compara quando fala do ofício das artes, Clarice Niskier ainda se envolve com causas sociais. Simpatizante do Movimento Humanos Direitos, organização não-governamental formada, principalmente, por artistas brasileiros, ela se mostra indignada com a política brasileira e com outros fatos que, para a atriz, ferem os Direitos Humanos. 

Como machuca o que está acontecendo no Rio Doce em Mariana, o que aconteceu em Paris, quando o Alckmin invade as escolas e bate nos estudantes... Como machuca a corrupção. Como machuca o PT não ter dado conta.
(Créditos: Leila Fugii)

Questões que ela leva para o palco e para a casa, quando conversa com o filho de 16 anos, que a companhou, desde os seis, no camarim de A Alma Imoral. Impressionados, lhe perguntamos sobre como o filho entendeu a nudez da mãe no monólogo. Mas Clarice responde com muita naturalidade, a mesma que leva ao palco e que deixa transparecer ao público. 

"Meu filho já conseguiu elaborar a nudez da mãe de uma forma artística. Compreender que o teatro é um ritual que protege a mãe dele. Não foi fácil, mas acho que ele extraiu muita coisa boa do texto", sorri. 

Nós nos fizemos nus a partir da dimensão que fomos tomando da morte. Nos fizemos nus, vulneráveis, vergonhosos desta condição de mortal. A partir do momento que tenho vergonha da minha mortalidade, eu me escondo.
(Créditos: Leila Fugii)

Aos 56 anos, Clarice não se preocupa com julgamentos ao se despir em cena. Dona de um corpo de fazer inveja a muita menina, Clarice é mais Clarice nua e vestida. Consciente do tempo que chama seu corpo para outro sentido, Clarice abraça os ponteiros que a devolvem paciência, disciplina e sabedoria. O mesmo tempo é capaz de lapidar o talento dessa atriz e de tomá-la pela mão para ascender no palco.

"Café. Água. Que horas são? Deixa só eu ver se dá tempo para mais uma pergunta. A luz tá boa assim? Ok. Temos mais alguns minutos. Adoro conversar (risos)."

Aproxima-se a hora do espetáculo. Clarice Niskier precisa se vestir, se maquiar, se mirar nos olhos e, então, encarnar-se do mistério que há em A Alma Imoral.

Fazemos apenas uma última pergunta sobre a ladainha de que mais dia, menos dia, o sertão vai virar mar e o teatro vai virar sertão. Com a mesma delicadeza com que dançou para as lentes da fotógrafa Leila Fugii, ela nos responde:  

O teatro não vai morrer nunca. Só quando a espécie humana acabar. E mesmo que a especie humana acabe, o teatro ainda vai durar um tempo. Como Clarice Lispector diria: "Ouça. Estou tendo certeza disso".
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