Miguel Falabella: "É uma tentativa de resgatar o afeto"

Miguel Falabella escreveu, concebeu e agora dirige a peça O Som e a Sílaba, que está em São Paulo, no Teatro Porto Seguro, com as atrizes Alessandra Maestrini e Mirna Rubim.

O espetáculo conta a  história de Sarah Leighton, interpretada Maestrini, uma jovem com diagnóstico de autismo altamente funcional, uma savant, com habilidades específicas em algumas áreas, entre elas a música. 

O enredo trata da relação de Sarah com Leonor Delise, vivida por Rubim, sua professora de canto. Recheado com árias, duetos e trechos de óperas, a trama vai mostrando que a música pode unir e mudar a vida destas mulheres. 

O Beijo conversou com o elenco e diretor sobre a concepção da peça, música erudita, autismo, preparação para um musical e a recepção do público. Confira:

 

(Créditos: Leila Fugii)

 

O BEIJO // Como surgiu a ideia desse espetáculo?

Miguel Falabella // Esse é um projeto que eu tenho faz muito tempo, desde quando eu fazia aula com a Mirna Rubim, a Alessandra Maestrini sempre trabalhou muito comigo e eu fiquei com isso na cabeça.

O projeto já se chamou Ária em um primeiro momento, ele já foi pra lá, ele já foi pra cá. Até que eu comecei a me interessar pela diversidade da mente humana, das diversas manifestações do autismo altamente funcional.

Comecei a ler sobre o assunto, pesquisar e aos poucos foi nascendo a Sarah Leighton que é o personagem da Maestrini, uma moça com síndrome de Asperger e por acaso, o que é raro, ela é uma savant.

Os savants, dentro do espectro autismo altamente funcional, são aqueles que têm habilidades específicas, de grandes conhecimentos, tem um rapaz na Inglaterra que é um grande desenhista, por exemplo, e ela é uma savant musical.

Então eu juntei dois assuntos que me interessavam muito. Ópera, porque eu ouvia ópera desde criança graças ao meu avô, que era italiano e gostava… O Falabella gostava de uma ópera.

 

E como o público tem recebido o musical, visto que muitas pessoas não conhecem ou não ouvem ópera?

Mirna Rubim // Enlouquecidos.

Alessandra Maestrini // A gente ouve muito, assim: Eu sou apaixonada por ópera e eu não sabia.

Miguel Falabella // É porque a música clássica coloca a mente em uma outra sintonia. É uma coisa muito impressionante. Eu tenho um afilhado que desde pequenininho eu mando coisas de ópera pra ele. Dia desses o pai dele filmou o menino ouvindo a Tosca. É impressionante, a criança entra em uma outra sintonia. Há um outro desenvolvimento quando se ouve uma música de alta categoria.

Então, a música clássica ela coloca sua mente num outro estado. Ela te dá possibilidades outras e eu acho que isso chega nas pessoas de alguma forma. Eu não conheço ninguém que não tenha ido a uma grande ópera e não tenha se emocionado e ficado tocado com a grandiosidade e a excelência da técnica dos espetáculos.

E esse espetáculo obviamente é um espetáculo de câmara mas é um espetáculo de muita sofisticação, de muito requinte. E ainda há público pra isso sim, sempre vai haver.

AM // E a gente recebeu no interior tanto pessoas que sempre sonharam em ir à ópera e nunca puderam, que choravam e falavam que finalmente viram uma ópera ao vivo, quanto a gente também teve gente que já viu de tudo e que curtiu à beça.

 

(Créditos: Leila Fugii)

 

E como vocês fizeram para levar a música clássica às pessoas de modo que elas gostassem? Essa foi uma preocupação?

MF // Foi muito agradável o fazer, eu acredito muito nesse clima que se estabelece no fazer teatral. A coxia forçosamente vaza para plateia. É mentira dizer que a gente está dando na cara um do outro ali, que entra aqui e faz graça, não, não acontece. De alguma forma a coxia vaza pra plateia e quando nós temos uma coxia feliz de um modo geral se tem um espetáculo feliz. Eu acho que é o caso desse.

É um projeto que foi muito delicado na criação, no ensaio e na maneira como ele foi conduzido, nós ensaiamos até na minha casa no Rio. Então foi uma coisa de amigos mesmo. Uma coisa muito afetuosa, muito caseira.

É um espetáculo muito despretensioso, na verdade. Eu acho que a beleza dele é porque ele é muito simples. É um espetáculo que a sofisticação dele reside no simples. Obviamente, tudo com extremo bom gosto, muito bem acabado, mas ele é um espetáculo muito simples. É um espetáculo de duas pessoas que precisam uma da outra.

Assim como a gente finge que não, a gente passa o dia assim, fingindo que não precisa do outro, mas precisa. E cada vez mais, porque o outro atualmente virou uma massa anônima, uma massa que você não sabe quem são.

Hoje em dia as coisas são contabilizadas em número e esse é um espetáculo que resgata o afeto, resgata o olhar para o diferente. E é um espetáculo que obviamente é uma ode à diversidade, no caso mental, incluindo a ópera.

 

(Créditos: Leila Fugii)

 

Como foi para você, Alessandra, a construção da personagem?

AM // Miguel já tinha estudado bastante sobre o tema, se apaixonou. É um homem movido às paixões, então ele mergulha, né? Então quando ele veio apresentar o texto pra gente, ele já tinha lido e assistido mais de infinitas mil coisas, praticamente, enfim.

Fui ver tudo o que ele falou pra ver, ler tudo o que ele falou pra ler, pesquisei vários sites, fui lá, segui meu diretor.

A comunidade Asperger tem sites próprios, tanto brasileiros quanto internacionais, então eles têm uma linguagem própria, tudo isso fui pesquisando. E conversando com amigos, fonoaudiólogos, psicanalistas, fazendo perguntas aqui, ali, tal.

Até que eu perguntei à doutora Mara Belau, que é minha grande amiga e uma das maiores fonoaudiólogas do mundo, mesmo, o Brasil pode bem se orgulhar disso. Disse: Mara, você tem alguém que você conheça que tenha, porque eu sei que você trata da síndrome, que você possa me apresentar e que gostaria de conversar comigo, e talvez com a equipe, com todo mundo? Ela falou: Tenho.

Ela conversou com a família Balducci, que são os fundadores da Fundação Autismo e Realidade e eu fui na casa da Julia Balducci, que é uma cineasta portadora da síndrome de Asperger.

Primeiro conversei, depois a gente saiu pra almoçar e quando voltamos, tirei o texto da bolsa e  pedi para ler com ela. Lemos um pouco e perguntei: tem alguma coisa que te incomoda? Ela respondeu: Não. Tem alguma coisa que você acha que está faltando? Ela: Não. Você se sente representada? Muito. Por fim, falei: Tem alguma coisa que você gostaria de dizer? Ela falou: Posso te pedir uma coisa? Bota pra quebrar, porque vai ser um arraso. E aí eu sabia que a gente estava no caminho certo.

 

E como foi a preparação da voz? Vocês fazem algum trabalho diário para manter?

AM // Uma disciplina diária e Mirna além de ser um dos nomes mais fortes do meio operístico, é também uma das maiores preparadoras vocais do país - o que acontece com as maiores cantoras de ópera no mundo inteiro - e foi ela que me preparou vocalmente na maior parte da minha vida, é minha preparadora para a ópera e me ensinou isso da disciplina diária.

MR // Sempre digo que tem que manter a cabeça no lugar. Tem que estar bem equilibrado, se você tem que tomar um "gorózinho", toma com moderação. Tem que ter liberdade, tem que ter alegria.

Agora a disciplina é rígida. É repouso, é ginástica, é uma alimentação sem lactose, redução de glúten, tem toda uma regrinha que vale a pena seguir.

AM // E até de horários, né?

MR // Não jantamos mais, comer tarde da noite não pode. 

AM // É, só pode cantar depois de duas horas de comer, senão dá refluxo. Isso eu descobri nesse processo.

MR // Pois é, mas para mim o que está na frente é o bem estar emocional do cantor.

 

(Créditos: Leila Fugii)

 

O musical fica em cartaz no Teatro Porto Seguro até 26 de novembro (sexta e sábados, às 21h, e domingo às 19h), com ingressos de R$ 90 a R$ 120.

Para mais informações, acesse o site do Teatro.

 
 
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