"Morrer todos os dias é uma delícia..."

 

A morte deu as mãos à Maria Alice Vergueiro. É com ela que a atriz contracenou no teatro em Why the horse - O último ensaio, que estreou em 2015, no curta-metragem Rosinha (2015), de Gui Campos e, mais recentemente, no documentário Górgona, de  Pedro Jezler e Fábio Furtado (confira o trailer). Neste último trabalho, em cartaz nos cinemas, os diretores a acompanharam  ao longo de cinco anos nos bastidores do espetáculo As três velhas.

Confira entrevista com Maria Alice Vergueiro cedida ao site O Beijo em 2015:

Fruto de uma árvore genealógica quatrocentona paulista, mas alheia a "não me toques", Maria Alice nos recebeu com sorrisos e café em seu apartamento no bairro de Higienópolis. Acompanhada pelo amigo e parceiro de cena há 23 anos, o ator Luciano Chirolli, não mediu tempo, nem palavras.

Entregou-se à poltrona que atualmente reveza-se em outro papel: o de cama funerária. E como boa contadora de histórias, repassou alguns capítulos destes 55 anos dedicados às artes, fosse no palco ou em sala de aula. 

"O que está acontecendo comigo é que estou me familiarizando com isso (a morte) e estou achando que aquele meu medo, o medo de estar aqui por pouco tempo... Não tenho mais tanto medo quanto tinha antes. Estou me acostumando a lidar com este assunto."

Quanto à memória, ela se apressa em pedir desculpas, "ela tem lá seus contratempos" por causa do avanço do Mal de Parkinson, diagnosticado em 2000. Mesmo assim, recorda-se da passagem pelo Teatro de Arena, onde estreou profissionalmente com A Mandrágora, dirigida por Augusto Boal, em 1962.

Nessa época, também abraçou a carreira de professora de arte-educação. Até que em 1971, foi ao encontro do Teatro Oficina. Um ano depois, atuou em Gracias, Señor  para, em seguida, se consagrar na sétima arte - "apesar dos poucos convites que recebi" -  com O Rei da Vela. 

Entre idas e vindas, sopra-lhe ao ouvido uma lembrança. "Depois disso, fui para Portugal onde dei aulas (na Fundação Calouste Gulbenkian)". Em terra lusitana, a atriz contracenou com José Celso Martinez Côrrea em Galileu Galilei, de Brecht, no ano de 1975.

De volta, fora desligada da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) para se juntar a Luiz Roberto Galízia e Cacá Rosset - ex-alunos - para fundar o Teatro do Ornitorrinco. As produções se davam nos porões do Teatro Oficina. Daí o título de Dama dos Porões ou Dama do Underground. 

"Isso não me incomoda. Só lembro, uma vez, quando minha neta estava no meu quarto e me perguntou sobre fotos da época: 'Vó, o que quer dizer dama dos porões?'. Comecei a explicar, mas me enrolei toda. Fiquei chateada comigo. Na Revolução Francesa, era no porão que muitos se escondiam para não correr o risco de morrer por expor suas ideias". 
 

Na sala, o cartaz de "Mãe Coragem e Seus Filhos", obra de Brecht, que ela interpretou em 2002, sob direção de Sérgio Ferrara (Créditos: Leila Fugii)


Pausa.

Maria Alice vira a página desta história para alcançar um livro sobre a mesa. Passa-lhe os dedos longos, unhas pintadas de preto. Pede um tempo, enquanto busca por uma passagem ou anotação. "Agora mesmo estou lendo um livro tibetano. E é uma delícia porque fala do viver e do morrer. Não leio seguido... Vou pelos títulos: Ajuda espiritual aos que vão morrer; Ajuda após a morte. Enfim, é um livro grande, mas muito acessível", recomenda. "Também consulto o I Ching", emenda. 

Nova pausa.


"Me veio agora (leva a mão à testa) uma música do Gil que diz assim: 'Não tenho medo da morte/mas sim medo de morrer/qual seria a diferença/você há de perguntar/é que a morte já é depois que eu deixar de respirar/morrer ainda é aqui/na vida, no sol, no ar'" 


Essa mesma canção faz parte da trilha que compõe a peça Why the horse. Para Maria Alice, a música reverbera o humor que encarrega de pincelar no espetáculo. "É o humor que te encaminha para - não sei se seria bom dizer - uma melhor compreensão da morte. Pelo humor, você se ausenta um pouco da tragédia", explica.

Há poucas apresentações, no entanto, ela sentiu necessidade de mudar o final do espetáculo. "Estava equivocada. Agradecia e ia embora. Mas não quero mais isso. O que acho que tenho que fazer é ficar deitada. Ficar presente. As pessoas se organizam no final, como se fosse um velório. Uns choram muito. 

Tateando este novo desfecho, Maria Alice Vergueiro confessa viver algo novo ali, no tablado. "Não me mexo. Pisco... Não vou mentir. Agora a música do Gil é muito simpática e ela resolve a situação."
 

(Créditos: Leila Fugii)


Sem que levantemos a curiosidade sobre um "certo vídeo", ela recorda tal episódio registrado no mesmo sofá onde está sentada. Em 2006, foi em casa que acolheu um trio de jovens diretores para gravar o Tapa na Pantera. "Nem sabia o que era Youtube", ri. 

Curta-metragem de ficção produzido e dirigido por Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes, a produção viralizou a imagem da atriz e confundiu uma geração que ainda jura, de pé junto, ser ela mesma a "transgressora vovó" protagonista. 



"Sempre fumei maconha. Uma coisa normal para mim. Só que começou um buxixo. Mas é claro que todo tabu tem seu lado divertido."
 
(Créditos: Leila Fugii)


Passada uma tarde de histórias,  sobra a vontade de morar ali: entre a imagem da Nossa Senhora e o quadro de Che Guevara só para ouvir Maria Alice Vergueiro. 

"Morrer todos os dias é uma delícia! Porque estou fazendo teatro e teatro é vida. Não entendo como uma pessoa pode viver sem teatro."
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