"Morrer todos os dias é uma delícia..."

A atriz Maria Alice Vergueiro abriu as portas de casa para uma boa prosa sobre vida, morte e teatro (Créditos: Leila Fugii)


A morte deu as mãos a Maria Alice Vergueiro. É com ela que a atriz contracena no teatro -Why the horse - O último ensaio - e no cinema - Rosinha e Assis (2015). Neste último trabalho, um curta-metragem rodado em Brasília pelos cineastas Guilherme Campos e João Paulo Procópio, ela interpreta uma senhora "bem mais velha que eu", ela antecipa, cujo marido não quer deixar só quando ele falecer. Por isso, logo trata de arrumar-lhe um substituto: o melhor amigo. O final? Prometemos segredo à atriz.

Fruto de uma árvore genealógica quatrocentona paulista, mas alheia a "não me toques", Maria Alice recebeu O Beijo com sorrisos e café em seu apartamento no bairro de Higienópolis. Acompanhada pelo amigo e parceiro de cena há 23 anos, o ator Luciano Chirolli, não mediu tempo, nem palavras.

Entregou-se à poltrona que, atualmente se reveza em outro papel: o de cama funerária. E como boa contadora de histórias, repassou alguns capítulos destes 55 anos dedicados às artes cênicas, fosse no palco ou em sala de aula. 

"O que está acontecendo comigo é que estou me familiarizando com isso (a morte) e estou achando que aquele meu medo, o medo de estar aqui por pouco tempo... Não tenho mais tanto medo quanto tinha antes. Estou me acostumando a lidar com este assunto."

A memória, ela se apressa a pedir desculpas, "tem lá seus contratempos" por causa do avanço do Mal de Parkinson, diagnosticado em 2000. Mesmo assim, se recorda da passagem pelo Teatro de Arena, onde estreou profissionalmente com A Mandrágora, dirigida por Augusto Boal, em 1962.

Nessa época, também abraçou a carreira de professora de arte-educação. Até que em 1971, foi ao encontro do Teatro Oficina. Um ano depois, atuou em Gracias, Señor  para, em seguida, se consagrar na sétima arte - "apesar dos poucos convites que recebi" -  com O Rei da Vela. 

Entre idas e vindas, sopra-lhe ao ouvido uma lembrança. "Depois disso, fui para Portugal onde dei aulas (na Fundação Calouste Gulbenkian)". Em terra lusitana, a atriz contracenou com José Celso Martinez Côrrea em Galileu Galilei, de Brecht, no ano de 1975.

De volta, fora desligada da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) para se juntar a Luiz Roberto Galízia e Cacá Rosset - ex-alunos - para fundar o Teatro do Ornitorrinco. As produções se davam nos porões do Teatro Oficina. Daí o título de Dama dos Porões ou Dama do Underground. 

"Isso não me incomoda. Só lembro, uma vez, quando minha neta estava no meu quarto e me perguntou sobre fotos da época: 'Vó o que quer dizer dama dos porões?'. Comecei a explicar, mas me enrolei toda. Fiquei chateada comigo. Na Revolução Francesa, era no porão que muitos se escondiam para não correr o risco de morrer por expor suas ideias". 
 

Na sala, o cartaz de "Mãe Coragem e Seus Filhos", obra de Brecht, que ela interpretou em 2002, sob direção de Sérgio Ferrara (Créditos: Leila Fugii)


Pausa.

Maria Alice vira a página desta história para alcançar um livro sobre a mesa. Passa-lhe os dedos longos, unhas pintadas de preto. Pede um tempo, enquanto busca por uma passagem ou anotação. "Agora mesmo estou lendo um livro tibetano. E é uma delícia porque fala do viver e do morrer. Não leio seguido... Vou pelos títulos: Ajuda espiritual aos que vão morrerAjuda após a morte. Enfim, é um livro grande, mas muito acessível", recomenda. "Também consulto o I Ching", emenda. 

Nova pausa.

"Me veio agora (leva a mão à testa) uma música do Gil que diz assim: 'Não tenho medo da morte/mas sim medo de morrer/qual seria a diferença/você há de perguntar/é que a morte já é depois que eu deixar de respirar/morrer ainda é aqui/na vida, no sol, no ar'", e solta um sorriso.

Essa mesma canção faz parte da trilha que compõe a peça Why the horse, em cartaz até o dia 13/09 no Galpão das Folias. Para Maria Alice, a música diz tudo e tanto quanto o humor que encarrega de pincelar no espetáculo. "É o humor que te encaminha para - não sei se seria bom dizer - uma melhor compreensão da morte. Pelo humor, você se ausenta um pouco da tragédia", explica.

Há poucas apresentações, no entanto, ela sentiu necessidade de mudar o final do espetáculo. "Estava equivocada. Agradecia e ia embora. Mas não quero mais isso. O que acho que tenho que fazer é ficar deitada. Ficar presente. As pessoas se organizam no final, como se fosse um velório. Uns choram muito. Outros vêm me pedir para ser cupido porque se interessaram por algum amigo meu. Veja se posso com isso?". 

Tateando este novo desfecho, Maria Alice Vergueiro confessa viver algo novo ali no tablado. "Não me mexo. Pisco... Não vou mentir. Agora a música do Gil é muito simpática e ela resolve a situação."
 

(Créditos: Leila Fugii)


Sem que lhe levantemos a curiosidade sobre um "certo vídeo", ela recorda tal episódio registrado no mesmo sofá onde está sentada para a entevista e ensaio de fotos. Em 2006, foi em sua casa que acolheu um trio de jovens diretores para gravar o Tapa na Pantera. "Nem sabia o que era Youtube", ri. 

Curta-metragem de ficção produzido e dirigido por Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes, a produção, que hoje contabilizada mais de 6 milhões e 300 mil visualizações, viralizou a imagem de Maria Alice e confundiu uma geração que ainda jura de pé junto ser ela mesma, Maria Alice, a "transgressora vovó" protagonista. 


Sempre fumei maconha. Uma coisa normal para mim. Só que começou um buxixo. Bem antes do Fernando Henrique (Cardoso), antes de passeata... Estávamos lá. Achei pioneiro este trabalho (Tapa na Pantera). Comecei a sentir aí um valor social. E bastou ter um valor social para ser político. Descobri que estava sendo útil para aquela moçada. Mas é claro que todo tabu tem seu lado divertido.
 
(Créditos: Leila Fugii)

Morrer todos os dias é uma delícia! Porque estou fazendo teatro e teatro é vida. É uma constante na minha vida... Não entendo como uma pessoa pode viver sem teatro.
 
Ao lado do amigo e parceiro de cena há 23 anos, o ator Luciano Chirolli, com quem contracena em "Why the horse - O último ensaio" (Créditos: Leila Fugii)


Passadas histórias e causos,  o que sobra é a vontade de ficar ali, entre a imagem da Nossa Senhora e um quadro de Che Guevara. Materializada em qualquer objeto que fizesse parte do cotidiano de Maria Alice para saber que outras ideias lhe escapam entre um café e o próximo livro de cabeceira. Pelo menos, faço mais uma pergunta: "Why the horse - O último ensaio não será sua última peça, né?"

Longa pausa.   


A próxima peça virá. Ela está por aí... Ainda sinto que tenho muita coisa para inventar.
 
(Créditos: Leila Fugii)

 

 
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