Malvino Salvador: "Como ator, quero estar em constante evolução"

18 horas e 30 minutos, sexta-feira. O avisto pelas longas vidraças das portas de entrada do Teatro Tucarena. Ele está diferente, veste um casaco elegante e um cachecol. Uma semana atrás, não estava assim. 

Estava estranho e dourado em outra pele. Com outra voz e vestes, encarnava sem pudores Boca de Ouro, criminoso carioca, protagonista da peça homônima, criada por Nelson Rodrigues. Agora, sob a batuta do diretor Gabriel Villela, o espetáculo fica em cartaz até 29 de outubro no Tucarena.

Malvino Salvador não lembra nem de longe a impulsividade de Boca de Ouro. Parece ponderar a cada pergunta feita. Nessa atenção ao ouvir, talvez repouse o conhecimento de quem lida com a fama, mas também o desejo de quem quer aprender com o outro.

Em entrevista a'O Beijo, o ator destrinchou o personagem que interpreta e falou sobre seu processo de preparação. Ao final do bate-papo falou da vida. Da mudança de Manaus e do grande tsunami positivo que ser ator causou em sua trajetória. Confira abaixo a conversa.

O Beijo :: Como foi sua preparação para peça? Malvino Salvador :: Eu já havia lido há bastante tempo a obra completa do Nelson Rodrigues. Para peça, resolvi ler a biografia dele ("O Anjo Pornográfico", de Ruy Castro). Foi muito legal, porque elucidou muitas dúvidas que tinha. Comecei a entender, porque ele escreveu tudo aquilo. Nessa fase de preparação, também assisti a muitas peças. O resto foi trabalhar as referências que o Gabriel Villela (diretor da peça) foi nos propondo.

 

 

O Beijo :: Quais foram essas referências? A primeira grande referência foi Brecht (Bertolt Brecht, dramaturgo alemão) no teatro épico. Essa peça, ao mesmo tempo em que anseia por ser épica, tem o componente de contar a história. Então, o exemplo que eles nos davam sempre era Sherazade. Se você conta uma história de uma maneira inteligente, não necessariamente precisa viver aquilo em cena. Foram nos dadas várias referências das artes plásticas, de imagens. Tem no texto que o Boca de Ouro é chamado de Drácula de Madureira, o Rasputin suburbano. Aí o Gabriel (Vilela) fez uma brincadeira, colocou no Boca um canino proeminente. Ele mata os personagens dando uma dentada, é quase um Hanibal, um vampiro mesmo. O Gabriel criou uma trajetória mítica para o personagem. No início, ele aparece mais ancestral e bárbaro. Depois, vai mais para pele do malandro, com um terninho e chapéu. Por fim, o Boca quer virar deus. Esses três movimentos, lugares e espaços, nos quais o Boca se enquadra, tem pontos em comum, mas também suas particularidades. São nessas diferenças que se explicita que o Boca está sendo retratado pelo humor da Guigui (personagem que foi amante do criminoso), pelo estado de espírito dela. Também tivemos ajuda de profissionais, como a Babaya (diretora musica) que trabalhou nossa voz, a Francesca Della Monica, que espacializa a voz, ela é uma antropóloga da voz. Trouxe um outro conhecimento para gente.

O Beijo :: E como foi esse trabalho de espacialização de voz? Primeiro, a Franscesca fala da origem, de quando, como e de que maneira o ser humano começou a falar.  Mostra também como isso foi evoluindo até se tornarem as línguas, cada uma com suas características. Depois mostra a relação da língua com região e origem. Isso faz muita significância no olhar geral. Te ajuda a compor o personagem, a saber que voz colocar.

No trabalho de espacialização, é como se fosse uma musculação para cordas vocais.  Eu, por exemplo, ganhei alguns tons que não tinha. Você aprende a colocar a voz de acordo com a intenção que você quer expressar na palavra. No tom certo, no momento adequado.

O Beijo :: Como você falou, o Boca de Ouro é um personagem multifacetado. Isso te encantou ou assustou? Adoro desafios. Admito que  imaginava que ia ser muito difícil. Acho o Nelson Rodrigues um autor difícil. Você pensa que ele está falando de algo simples, mas, na verdade, ele está colocando inúmeras significâncias naquilo que está dizendo. Como viver um personagem tão emblemático, sabendo que tantos outros autores o encenaram? Me empenhei muito. Outra coisa que me deu uma base boa é saber com quem estava trabalhando. No processo de ensaio, é interessante, você vai sendo influenciado pelos colegas. Você faz, é criticado ou não, é apoiado ou não, e vai encontrando o caminho. Foram três meses de ensaio, tivemos tempo para  nos lapidar. Então, o que no início era uma certa preocupação ("Como vou fazer isso?" "Como vou entrar no universo do Gabriel Vilela"), se transformou em algo bom. Fui super bem recebido. Logo nas três primeiras semanas, relaxei e entrei na brincadeira. 

O BEIJO :: Na peça, há vários momentos em que se nota um tratamento desrespeitoso com as mulheres. A despeito da época em que foi escrita, você em algum momento sentiu um incômodo? Não me incomodou em nada. A obra foi escrita em 1959, os padrões eram outros, a consciência sobre muitas questões eram bem diferentes das que temos hoje. A sociedade era mais machista. E continua sendo. Mas ela era muito mais antes. Quem assiste o espetáculo tem que ter esse discernimento e alguma ponderação. Na minha opinião, o espectador tem que aproveitar o que a obra tem de excelência, que é a estrutura, a narrativa, isso é o mais interessante. O Nelson Rodrigues é considerado o maior dramaturgo brasileiro. E, de certa forma, ele foi considerado um autor que colocava na sua obra o que acontecia na sociedade. Então, um comentário machista na peça é nada mais do que acontece. Ele expunha isso nos seus personagens. Ele retrata o povo brasileiro como ele é. Sem crítica sobre isso. Acho que um autor tem que ter liberdade artística. Não acredito que o Nelson faça apologia ao machismo. Ele expõe personagens machistas. O público, na minha opinião, é quem deve entender aquilo como personagem. Ele pode se sentir orgulhoso daquilo, ou rir, porque também é machista.

O Beijo :: Uma questão extra-peça. Você é de Manaus, antes de sair de lá, fazia Ciências Contábeis. Você vivia algo muito diferente do que vive hoje?  Você esperava por isso? Não, não esperava. Nem imaginava que ia ser ator. Quando saí de Manaus, fui trabalhar como modelo e comecei a fazer curso de interpretação, voltado para televisão. Fazia muito teste para Publicidade e comecei a gostar. Logo depois, pintou um convite para uma peça do Wolf Maia, Blue Jeans. Eu estava há seis meses no Rio. Participei do teste e passei em meio a centenas de candidatos. Fui o último a entrar dos 22 atores. No meio do espetáculo, devido minha performance, ganhei um personagem maior no meio da peça. Percebi, então, que estava conseguindo, com a minha dedicação, melhorar e ser visto. Isso começou a me motivar cada vez mais. Quando pisei no palco, vi, então, que era aquilo o que eu queria para minha vida. E aí, tudo mudou. Comecei a estudar, a entender, a querer, a correr atrás para conhecer. Fui atrás dos grandes nomes do teatro mundial e brasileiro. Eu não tinha muito esse conhecimento. Sempre fui louco por cinema, mas admito que também não era um espectador de cinema nacional. Via mais filmes estrangeiros, hoje entendo o motivo, eles tem mais apelo comercial, mais força, já que tem o marketing a seu favor.

Depois de três anos e meio me dedicando, fui para Globo e minha vida mudou. Nesse meio tempo, fazendo as novelas, percebi que o teatro  era o local onde eu ia me reciclar. Lá, estaria sempre me apoiando, porque é nos palcos que vejo a possibilidade de ganhar novas habilidades. É como um artesão que vai melhorando ao longo da sua vida. Como ator, quero estar em constante evolução.

O BEIJO :: Em algum momento, o sucesso te causou estranhamento? No início, achei um pouco invasivo. Era tudo muito novo. Já comecei na televisão com um personagem de peso (Tobias em "Cabocla"). Existia uma expectativa muito grande, porque a mídia veio muito forte. Mas aquilo, ao mesmo tempo, me fez aprender. Como veio nessa porrada, entendi como funcionava e já me acostumei. Hoje, lido muito bem. Sempre vai ser assim, vai ter o lado positivo e negativo. Quando você é famoso, as pessoas querem saber de você. Umas querem saber do trabalho. Outras querem saber de fofoca. É isso. E fofoca vende./f

 

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