"Hoje, o Baixo Augusta. Amanhã, o mundo"

Leonardo Medeiros pelas lentes da fotógrafa Leila Fugii: "Isso aqui é um navio pirata que navega"


Os olhos, estes atrevidos rasgos da alma, entregam o desassossego de Leonardo Medeiros. Nascido no Rio de Janeiro e criado na capital paulista, se graduou em artes cênicas pela Universidade de São Paulo até partir para Londres, onde estudou para ser diretor de teatro no British Theatre Association. No entanto, ele levou mais de três décadas entre televisão e cinema para, finalmente, se dedicar à direção.   
 

(Créditos: Leila Fugii)

"Meu projeto é este. Os outros são pra tirar um troco"
 
(Créditos: Leila Fugii)

 

Na noite de segunda-feira, ele abre a porta do Teatro da Rotina. Em frente ao novo e ainda tímido espaço cultural, na Rua Augusta nº 912, faz o papel de anfitrião. É ele quem convida apressados transeuntes a subir as escadas do prédio comercial para assistir As Palavras da Chuva. Em cartaz há oito meses, a peça marca a estreia do grupo cujo nome é o mesmo da sala de teatro. 

Aliás, do bolso de cada um dos integrantes partiu a verba para luz, som, palco, arquibancada, tinta, fios, decoração, máquina de café... Investimento este atrelado a um projeto que nasceu do encontro entre Leonardo e os atores - Antonio Motta, Bia Paganini, Camila Araujo, Karina Alencar, Kathia Calil, Matheus Prestes, Rafael Dib e Lino Camilo. 

"No começo, juntamos um pessoal na minha casa e, depois de um ano, sentimos a necessidade de parar de só estudar e pesquisar para, então, praticar. Foi aí que alugamos esta sala, onde funciona o teatro. Depois disso, o processo foi natural: tínhamos uma peça pronta", recorda.  
 

(Créditos: Leila Fugii)


Em seu DNA, o Rotina abre as cortinas somente para montagens próprias, afinadas com uma minuciosa pesquisa e cuidados estéticos. "Como diretor, sinto muita falta de rigor na cultura de teatro brasileiro. Por isso, demos o nome de Rotina. Palavra usada na França e na Inglaterra para descrever ensaio, repetição. É ela, a repetição, que agrega valor ao trabalho uma vez que vivemos uma desvalorização da cultura. Ou seja, os grupos não têm tempo para ensaiar. No nosso caso, a peça se transformou em algo muito melhor desde que estreou", reforça.
 

(Créditos: Leila Fugii)


Em fase de ensaio, o próximo projeto saltou da cabeceira de Leonardo Medeiros para ganhar corpo em três atos.  Desassossego - "um livro desta grossura e em prosa de Fernando Pessoa" - será lapidado pelo Teatro da Rotina. Ambiciosa, a primeira parte da montagem deve estrear no aniversário de um ano do endereço do grupo para, então, ganhar sequência em outras duas partes nos anos seguintes. "Nossa ideia é apresentar a peça inteira em 2017", adianta. 

Nesta hora, Leonardo tira os óculos e esfrega os olhos. Conta que irão passar pela mesma "via crucis" atrás de recursos em editais. Mas não desanima. "Bem ou mal, a gente está vivendo este desinteresse do público. Tanto que é difícil encher esta sala com 30 pessoas. Fazer meia casa, então, é um sacrifício. Mesmo na rua, botando as pessoas pra dentro é de extrema satisfação, sabe? Me sinto realizado e fazendo algo importante aqui." 

(Créditos: Leila Fugii)


Dez minutos antes de começar o espetáculo, Leonardo reverbera o alerta que a peça já vai começar...

Enquanto alguns espectadores se apressam para apagar o cigarro e subir as escadas do prédio comercial, outros já estão acomodados e dão início ao burburinho na plateia.

O diretor checa os últimos detalhes.

Toca a primeira,
a segunda, 
a terceira badalada do sino.

Abrem-se as cortinas e a chuva começa a cair.

"Bom espetáculo!" 

(Créditos: Leila Fugii)

 

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