Gerador de sonhos, Gero é Camilo e Brasil

Gero Camilo pelo olhar da fotógrafa Leila Fugii no espaço Hilo Coworking, na Vila Madalena 


Escrevinhador e intérprete de personagens tão urbanos, quanto reais, seja no teatro com Aldeotas ou no cinema com Bicho de Sete Cabeças, Gero Camilo é uma profusão de vidas na arte. Poeta, escritor, dramaturgo, diretor, músico e ator, ele retoma no dia 15 de janeiro, a temporada de Caminham Nus Empoeirados, no Teatro Nair Bello, ao lado do parceiro de cena, e também produtor do espetáculo, o ator Victor Mendes. Antes da reestreia, ele conversou com o site O Beijo e pousou para a fotógrafa Leila Fugii, que registrou ângulos do voo deste homem-gaivota. 

De Fortaleza para o mundo, Paulo Rogério da Silva foi adotado pelo verbo ainda criança. "O primeiro livro que li, descobri na gaveta do meu irmão e era de um amigo do bairro. Tirando os livros escolares, tive acesso a uma literatura próxima. Percebi, de cara, que a literatura estava à mão de todos nós como expressão. A partir daí, tomei gosto pela poesia, que foi minha primeira manifestação artística", recorda. 

Desde então, não viu limites para fazer de cada cena observada, pretexto para desenhar personagens e enredos. Foi, inclusive, com a primeira peça autoral - A Procissão - que aos 23 anos entrou na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP).

Antes disso, no entanto, fez outra escola que, por pouco, não o levou ao sacerdócio. É que pelas mãos da Teologia da Libertação e da Pastoral da Juventude, Gero Camilo encontrou respostas e perguntas para uma sede por justiça e igualdade social. Curiosamente, foi por fazer cursos e beber da fonte dessa ala progressista da Igreja Católica, que ele acabou descobrindo a arte dramática como vocação.  

"Tanto nas pastorais, no movimento estudantil, quanto na escola, eu era aquele da turma que mais agitava no campo artístico e político. Mesmo sem entendimento, ainda, de que isso era arte", conta.

Sampa de ver e viver
De pequeno, se acomodava com os irmãos na boléia, enquanto o pai conduzia o caminhão pela BR 116 rumo à casa dos avós em São Paulo. Tinha aí as primeiras impressões da cidade que abraçaria como sua, anos mais tarde. Chegou a morar na capital paulista, dos 16 aos 18, com os avós, enquanto se dedicava a pastoral da juventude. 

Lembra o preconceito que sofreu por ser nordestino, a resistência e aspereza da metrópole... Mas também fez amigos aqui e sentiu um borbulhar de conhecimento que lhe chamava de volta. 


"A fé acaba te libertando de Deus. Depois que você entende isso, fica mais fácil até brigar com Deus. Então, acho que neste sentido a teologia da libertação cumpriu este papel: me libertei de dogmas. Junto a isso, a arte veio para botar pimenta no negócio e fazer com que este conflito saudável acontecesse." 

Tanto que em 1994, Gero retornou. Dessa vez, como aluno na EAD, para rabiscar outra história com SP. Formado em artes dramáticas, com A Procissão, a mesma peça com que fez brilhar os olhos da banca que o aprovou para estudar teatro, subiu ao tablado profissionalmente. Foi diretor e ator da peça, incentivado pelo amigo e também dramaturgo Leo Lama, filho do mestre Plínio Marcos.  

Não demorou para que Gero Camilo chamasse a atenção de outros diretores. Tanto que, no ano 2000, foi parar no longas Bicho de Sete Cabeças, de Laís BodanzkyAbril Despedaçado, de Walter Salles. Nesse mesmo período, fez os primeiros testes para outro filme, Narradores de Javé, de Eliane Caffé, e recolheu boas críticas não só pelo desempenho nas telonas como também no teatro, por A Procissão.

Nada mais natural que no ano seguinte, voltasse ao cinema. Dessa vez com Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, e Madame Satã, de Karim Aïnouz. "Tinha toda uma cidade se abrindo agora para mim que não era mais a cidade universitária, mas a grande mãe." 
 

(Créditos: Leila Fugii)
 
(Créditos: Leila Fugii)


Papeis na arte e na vida
Criterioso ao escolher cada papel para o qual empresta corpo e alma, Gero se leva pelo caminho da poética e conteúdo da obra, em primeiro lugar. Já disse não a várias propostas, principalmente àquelas em que viu a caricatura e não o ser humano no personagem. Também negou repetir papeis com receio de cair em estereótipos. "Por exemplo, quando fiz Bicho de Sete Cabeças, imagina quantos convites recebi para fazer loucos?(risos)."

Na música e na literatura também só expressa o que lhe faz bulir o coração. Em abril, lança mais um livro - Cajita de Monerias - pela editora Edith. São poesias gestadas durante os três meses da filmagem de Men on Fire (2004), de Tony Scottno México, na qual contracenou com Denzel Washington.

Também em 2016, busca patrocínio para uma turnê com músicas de Belchior, projeto cultural já aprovado pelo Programa de Ação Cultural (Proac), da Secretaria de Cultura de São Paulo.

"Até hoje, fui muito criterioso em todos os trabalhos que fiz e pretendo que isso continue. Não é fácil percorrer o caminho que eu escolhi."
(Créditos: Leila Fugii)


Fiel aos valores que defende desde menino -  herança da família, da teologia da libertação e dos percalços e conquistas ao longo de mais de mais de duas décadas em São Paulo -  Gero Camilo não teve medo de se expor na campanha Liberdade na Vida e na Arte, da revista Antro Positivo. No cartaz, Gero e o amigo de palco, o ator Caco Ciocler, se beijam na boca, assim como outros atores e atrizes fotografados.  

"Apesar das ameaças que eu e outros atores sofremos no inbox do Facebook, achei a campanha fundamental. Eu estava indignado com o aumento da violência, da homofobia. Ou nos manifestávamos todos, humanamente falando, fossem heteros, gays, GLXYZ... Ou, de fato, entraremos no obscurantismo. Como alguém vai dizer quais são as regras do meu corpo?", questiona.  

 

(Créditos: Leila Fugii)

 

Os atores Caco Ciocler e Gero Camilo em campanha da revista Antro Positivo em 2015 (Créditos: Site Antro Positivo)
"Apesar das ameaças que sofri no inbox do Facebook, achei fundamental essa campanha (Liberdade na Vida e na Arte).Como alguém vai dizer quais são as regras do meu corpo?"
(Créditos: Leila Fugii)
 

Gestações para 2016
Para o cinema, planeja rodar a história da peça Aldeotas. Seria o primeiro longa-metragem como diretor. Antes disso, no entanto, a mesma peça arruma as malas para percorrer outros estados brasileiros durante o ano. 

Hoje, também colhe outros frutos com Aldeotas. A montagem lhe rendeu um convite da diretora portuguesa Luisa Pinto para fazer o caminho inverso dos navegadores. Com esta peça, Gero Camilo e Victor Mendes abriram a primeira edição do Festival de Teatro de Matosinho – mostra voltada para produções de língua portuguesa, no município vizinho do Porto - em 2014, e estenderam a parceria Brasil-Portugal com o espetáculo Caminham Nus Empoeirados, em 2015.

"A grande maioria dos artistas são artistas populares. O artista midiático representa 0,0001% e olhe lá de  um país que é quase um continente como o Brasil."

"A temática da peça é o artista popular, que tanto aqui quanto lá, tem os mesmos perrengues só muda de Euro para Real. Outra diferença é que na Europa, os artistas vão para rua e são reconhecidos pela arte. Enquanto no Brasil, ainda há preconceito. Caminham Nus Empoeirados fala disso, mas não fica só no umbigo do artista. É uma comédia com a qual o público se identifica. Uma ode ao teatro, ao amor e à vida", defende.

(Créditos: Leila Fugii)

 

"Já disse Plínio Marcos, algo mais ou menos assim: feliz é aquele que consegue penetrar no núcleo macio do coração de um homem endurecido. O ator é o cara que faz isso."

**Agradecimentos ao espaço Hilo Coworking, R. Aspicuelta, 345 - Vila Madalena

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