Grupo Galpão fala de desafios e do porvir

  • "Romeu & Julieta" (1992-1994/ 1995-2003/ 2012-2013) (Crédito: Guto Muniz)
    "Romeu & Julieta" (1992-1994/ 1995-2003/ 2012-2013) (Crédito: Guto Muniz)
  • "Um Molière Imaginário" (1997-2007) (Crédito: Guto Muniz)
    "Um Molière Imaginário" (1997-2007) (Crédito: Guto Muniz)
  • "Eclipse" (2011) (Crédito: Guto Muniz)
    "Eclipse" (2011) (Crédito: Guto Muniz)
  • "Tio Vânia (aos que vierem depois de nós)" (2011) (Crédito: Guto Muniz)
    "Tio Vânia (aos que vierem depois de nós)" (2011) (Crédito: Guto Muniz)
  • "Os Gigantes da Montanha" (2013) (Crédito: Guto Muniz)
    "Os Gigantes da Montanha" (2013) (Crédito: Guto Muniz)

    Em cartaz no Sesc Santana com o espetáculo De Tempo Somos, o Grupo Galpão é de laço, de nó e de chão. Bota chão nisso, sô. Se no palco, cantam e executam 25 canções de trabalhos mais antigos como Corra enquanto é tempo (1988) e Álbum de Família (1990), até espetáculos mais recentes como Tio Vânia e Eclipse (2011), fora do palco ainda tocam uma companhia de sucesso e reconhecimento após largos 32 anos. 

    Em abril, passaram por São Paulo, no Itaú Cultural, para lançar um box com os diários de montagens de 10 espetáculos do grupo. Trabalho que teve inicío com Romeu & Julieta, montagem que foi exibida sob fortes aplausos de uma plateia inglesa, habitualmente não calorosa, no Shakespeare Globe Theatre.

    Cientes de que a jornada de um artista é árdua, mais ainda é de um grupo que ainda administra o próprio espaço cultural em Belo Horizonte, Chico Pelúcio, ator e diretor geral do Galpão Cine Horto, Eduardo Moreira, ator e diretor de montagens do Grupo Galpão, e Rômulo Avelar, gestor cultural do grupo há 17 anos, falaram com O Beijo sobre gestão cultural, teatro de rua, desafios, projetos para o futuro e  pedras do caminho. Umas sagradas, outras de aborrecer. 

    "Estamos numa fase de preparar um campo para que outros venham arar e plantar. Temos um projeto de uma nova sede que é para daqui a 20 anos. Terei, se tiver aqui, 76 anos. Vamos estar aguando os canteiros da nova sede e o povo lá, fazendo teatro", brinca Chico sobre o futuro. 

     

    O Beijo: Por que compartilhar esta série de livros e DVDs agora neste momento?

    C.P.: Lançar estes livros neste momento é bacana porque não só o Galpão e o Galpão Cine Horto, mas o Teatro, de maneira geral, vêm discutindo a questão da importância de se preservar a memória (do teatro), das possibilidades de compartilhamento em rede do trabalho de artistas e de grupos. Ou seja, como criar essa rede de troca de conhecimento, de diálogos, num momento em que o país em crise põe em xeque a árdua tarefa de continuidade. Também vem num momento em que o grupo se pergunta que herança queremos deixar para os que vierem depois de nós, o subtítulo da nossa peça Tio Vânia.

    E.M.: Esse processo dos diários de montagem (à venda no site do Galpão) começou em 1992, do encontro com o Gabriel Vilella e do Cacá Brandão. Foi uma prática que começamos a partir desse encontro e foi muito importante a presença tanto do Gabriel quanto do Cacá de virar uma prática esse registro. Eu passei a fazer um pouco essa função, porém, mais no papel de ator, refletindo um pouco sobre a prática. Então esses diários têm muito essa característica de registrar o dia a dia da montagem até depois revisarmos e tirarmos algumas coisas que eram muito íntimas, desnecessárias para divulgação. Essa é uma maneira, especificamente os diários, de trazer o calor do momento. Diferentemente do livro sobre o Galpão Cine Horto que traz uma análise elaborada deste espaço que já tem 15 anos. O sabor do momento está nesta série de montagens.

    O Beijo: O Galpão sempre se preocupou em preservar sua memória e compartilhá-la com o público. Por que esta sempre foi uma característica do grupo?

    C.P.: Temos a biblioteca no Galpão Cine Horto e o próprio portal do grupo. Todos são instrumentos de pesquisa para o público em geral. Não só sobre o Galpão, mas sobre o teatro como um todo. Talvez essas bibliotecas especializadas em teatro não tenham tudo que nós temos no Cine Horto. E é aberto para todos. Tanto os diários de montagem quanto os livros de gestão abrem a porta, digamos, da “cozinha” do grupo, revelando o que fizemos e que deu bons resultados e os tiros na água. Também é referência para outros grupos e centros culturais entenderem o processo. Revelamos nossos processos, algo que está desprestigiado porque as pessoas só querem saber de resultados. O grande nó, hoje, é essa questão da gestão, que veio cobrir uma lacuna do grupo e da maioria dos grupos: como se manter em continuidade? Como se manter trabalhando a médio e longo prazo? No caso, o processo de gestão cultural dos grupos de teatro era intuitivo: como fazer um projeto, que público atingir, como captar recursos, etc. Foi aí que entrou o gestor cultural no Galpão.

    R.A.: O processo é sempre, de certa forma, intuitivo. Eu trabalho com o Galpão há 17 anos, mas também com outros grupos. Trabalho como assessor de planejamento, mas hoje como consultor, também no dia a dia. Essa questão da construção de uma estrutura para um grupo artístico é um desafio para grande parte deles. O Galpão nasce em 1982, num clima de absoluta informalidade, como outros grupos surgem, espontaneamente, mas aos poucos o crescimento exige outros conhecimentos além do artístico. A criação está sempre em foco, mas outras competências precisam ser agregadas, e a gente tenta relatar com essa experiência do galpão como essa experiência foi se dando. Isso que o Chico falou: como os nós foram desatando; as descobertas; os avanços neste terreno. Outros nós ainda não foram desatados e, até hoje, aos 33 anos de grupo, ainda são limites e dificuldades.

    O Beijo: Há um site "Galpão eu Apoio" que esclarece como as pessoas podem colaborar com o trabalho do grupo. Como funciona?

    R.A.: Esse é outro desafio. A busca do recurso é um ponto de fragilidade para todo mundo. Estamos no Brasil. Ouvimos que o Galpão não precisa (porque são relativamente reconhecidos no País e no mundo). Mas, como assim, não precisa? Estamos sempre fazendo girar uma roda que não pode parar. Por isso é necessário abrir frentes de recursos. As leis de incentivo à cultura, de certa maneira, já mostram sinais de exaustão. Então, é preciso buscar outras perspectivas de sustentabilidade do grupo e a pessoa física é um caminho muito interessante. Desde 2014, desenvolvemos algumas ações para ter o público como parceiro. 

    C.P.: O Rômulo estava falando sobre os nós. E o grande nó para a gente é a continuidade. O financiamento do planejamento a médio e longo prazo. Tudo que cerca hoje a área artística brasileira tem um período fiscal de um ano. Então, as leis: um ano; prestação de contas: um ano; carnaval: um ano; passa o carnaval e aí começa o ano. A sensação que temos é de ter que provar tudo ano a ano. Ou seja, há uma estrutura burocrática que impõe ao trabalho artístico o calendário de um ano.

    R.A.: E é um modelo muito focado no evento. Fala-se pouco em projeto de manutenção, projetos que confiram permanência ao trabalho dos grupo e isso é um fator dificultador. Este é um enorme desafio.

    O Beijo: Além deste desafio, como vocês observam e analisam o teatro de rua, hoje, com mais de 30 anos de experiência?  

    E.M.: Acho que o teatro de rua teve um momento de explosão e o Galpão tem uma contribuição para isso. Alguns grupos que desenvolvem projetos interessantes hoje como o Terreira da Tribo (Porto Alegre), o Emboaça (Aracaju), o Tá na Rua (Rio de Janeiro), para citar apenas alguns nomes, dentre outros. Sem querer deixar fora ninguém. Mas acredito que, a partir do final da década de 1990 e começo deste século, o Teatro de Rua sofre uma retração. É claro que há ações como a dança que foi para um lado performático e buscou algumas coisas de rua que são interessantes. No entanto, eu acho que ainda é tímida a presença do teatro de rua no Brasil. Ainda mais se você pensar aqui nas regiões Sudeste e Sul – porque o Nordeste já tem uma tradição da cultura popular que se faz ali. A rua é um lugar importante para ser conquistado. Vivemos uma situação do teatro que é de sobrevivência, de dizer, um pouco aquela história que já virou folclórica, mas é verdade: Peter Brook falava que se um dia fechassem todos os teatros, ninguém ia reparar.  Acho que estamos um pouco nesse desafio de mostrar também às pessoas a importância do teatro como um lugar onde as pessoas se encontram, onde uma coletividade se reúne para pensar seu momento político, social, e também para se divertir, é entretenimento... E estamos vivendo um momento difícil, tentando afirmar uma sobrevivência.

    C.P.: Acho que o teatro de rua realmente sofreu um retrocesso. E acho que pela falta de financiamento e pela impossibilidade de evolução, seja do ponto de vista da dramaturgia, da estética ou de ocupação do espaço urbano. Esses aspectos, principalmente pela dificuldade de se ocupar a rua, muitas vezes um espetáculo de rua demanda mais grana para ser montado ou mais estrutura para se impor no meio da rua que um palco. Essa é uma das questões. Outra questão é quando se fala de uma democratização de acesso ao teatro, de circulação, acho incrível que o poder público não pense em políticas culturais voltadas para o Teatro de Rua. Você tem hoje no Brasil, fizemos uma pesquisa recente, 78% dos municípios não têm teatro. Aliás é curioso porque tem mais teatro até que cinema (85% dos municípios não têm cinema). Então falar em democratização, circulação e interiorização do teatro para a população no Brasil e não ter nada pensado para o teatro de rua que, pelas suas características tem mobilidade, tem uma linguagem mais popular e universal e no seu DNA a natureza de viajar, de se deslocar, é um absurdo. Acho que essa soma de deficiências – falta de financiamento, falta de uma política pública específica que atenda – leva muito a  essa produção descrescente do Teatro de Rua.

    R.A.: E acho que ainda tem outro fator: a legislação das cidades que tem se colocado como uma barreira para o teatro de rua. As exigências começam a ficar tão grandes e restritivas que acaba desestimulando o artista. É caro e complicado. Então, os artistas não estão sendo convidados para participar desta discussão.

    C.P.: Soma-se a isso a miopia dos arquitetos que fazem um planejamento urbano com praças belíssimas, jardins, mas não há um espaço de convivência, de troca. O teatro de rua é mais do que um teatro em si. Ele é um evento cidadão. Ele coloca o teatro e as pessoas onde todos tem o mesmo direito, um espaço de comunhão. Tem uma crônica de um médico que foi assistir a um espetáculo do Galpão e ele diz que é neste espaço público um tem que ceder o espaço para o outro sentar no chão, enquanto o outro tem que entender que não dá para tampar o outro. Do lado, tem um que divide o vinho com amigos... Enfim, todos compartilham daquilo. E ele disse assim: “Quem dera se cada cidadão tivesse uma dose de teatro de rua pelo menos uma vez por mês”. Algo lindo. Porque é isso, não é só apreciação teatral, mas um evento cidadão.

    E.M.:  Além do teatro de rua, especificamente, o teatro hoje está com um problema grave: ele perdeu o vínculo com o público e tem tudo a ver com isso de ter virado um evento, com as leis de financiamento. Fazíamos três meses de temporada e hoje não é mais assim. São eventos de poucas semanas. O teatro era de segunda a segunda e hoje é de final de semana. Isso enfraquece o vínculo com o  público.

    C.P.: A gratuidade é discutida. O que tem levado o espectador ao teatro? A mídia, a escola, o professor, o ingresso gratuito? Estamos nos perguntando o que faz a pessoa sair do sofá, se deslocar até o teatro e assistir a uma peça? Neste bolo de discussão, temos batido muito na ideia de que só a interface entre educação e cultura vai levar de fato as pessoas a entender a importância da arte como um todo. Não adianta propaganda, não adianta ingresso gratuito, nem supermídia se esse hábito de apreciar uma obra de arte, o belo, o subjetivo não tiver na formação do ensino.

    O Beijo: O que vocês vislubram e querem para o futuro? Novos projetos, espetáculos... Como vocês se sentem neste momento?

    E.M.: Eu quero acabar como o Molière: morrer em cena (risos). Sem querer me comparar a ele. Espero acabar assim, de preferência, no palco. Vou me sentir feliz. Gosto de atuar, de dirigir, gosto de estar no palco, é meu lugar. Damos aulas, workshops, oficinas, como artista me alimenta encontrar com pessoas mais jovens e ver como eles entram em cena, como vêem o mundo. Estamos trocando com eles.

    C.P.: Eu me alimento dos projetos do Cine Horto. A gente vai se alimentando. Temos interesses que se complementam e podem dificultar também. Não é fácil. Mas é isso que faz o grupo atuar em várias posições. Atualmente fazemos essa pergunta, estamos todos na faixa dos 50: que legado a gente pode deixar? O teatro é autofágico, ou seja, quem viu, que não viu, amém, Jesus. Então, que legado a gente pode deixar? O que queremos daqui a 20 anos? Como planejar a vida de tal forma que mesmo com minha coluna e joelho dando pau, eu possa continuar exercendo uma atividade criativa. Pode ser na direção, escrevendo. O que podemos continuar fazendo? Tem um período da vida que a gente quer alimentar o próprio umbigo. A gente se acha o tal e portanto quer fazer sempre. Só que chega outro período da vida que a gente quer abrir espaço para que outros façam, que outros bebam da nossa experiência, ou que a gente aprenda com eles para fazer outra coisa de outra forma. Estamos numa fase de preparar um campo para que outros venham arar e plantar. Temos um projeto de uma nova sede que é para daqui a 20 anos. Terei, se tiver aqui, 76 anos. Vamos estar aguando os canteiros da nova sede e o povo lá fazendo teatro. 

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