Conheça a Trackers, o underground do undergound

(Créditos: Leila Fugii/O Beijo)

 

Centro de São Paulo. Do lado direito, está a Galeria Olido, na frente, o Largo Paissandu. Na esquina da Avenida São João com a Rua Dom José de Barros, não há letreiros, mas a fila que se estende pela calçada, dá a dica: você chegou à Trackers.

A balada, uma das mais conhecidas da cidade, abriga no dia, uma sexta-feira, a festa Metanol e Convidados. O coletivo de música eletrônica, conhecido pela vocação experimental, também possui uma rádio FM.

“Qual é o seu nome?”, pergunta a hostess da casa.

“Meu nome é Stephanie, eu vim fazer uma matéria”, digo.

Ela me olha simpática e me entrega um papel branco com simplesmente "Sté".

São três lances de escada para chegar à balada propriamente dita. A Trackers está hospedada em um prédio antigo, a arquitetura remete a uma época mais sóbria. O clima, no entanto, é divertido.  É como você estivesse dentro de seu filme indie favorito, dentro de um enorme apartamento que toma todo o terceiro andar.

Ao circular pelo espaço, você tem a impressão de estar andando em um labirinto de fazer o Kubrick sentir inveja. As infinitas salas do apartamento não têm portas e foram transformadas em ambientes, onde cada DJ pode tocar o seu som - e assim, os visitantes podem escolher qual espaço lhes agrada mais.

As paredes são como uma atração a parte. Têm desenhos de caveiras e animais tropicais, como onças e araras em tinta neon.  A forma como se integram com o ambiente escuro é ambígua, ao mesmo tempo em que elas servem como guia, elas também ostentam um elemento surpresa, você não sabe (para o bem ou para mal) onde vai parar.

 

(Créditos: Leila Fugii/O Beijo)

 

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Sobre os looks, é preciso falar deles. As meninas usam casacos de pelinho, que acabam indo para o guarda-volume, e botas pretas da Melissa em looks ousados. Os caras se parecem com aqueles que eram da sua sala da faculdade que escutavam disco de vinil e usavam all-star.

Se a Funhouse é o lugar onde os indies iam para transar, a Trackers é onde os alternativos vão para se sentir em casa

E o fumódromo? Nem o frio consegue impedir que as cumpridas sacadas do apartamento – que abrigam fumantes -- estejam cheias. Ao entrar no espaço apertado, você percebe que está diante de uma vista privilegiada do centro de São Paulo. Embora pareça perigoso durante a madrugada, tem indiscutível beleza.

 

(Créditos: Leila Fugii/O Beijo)

 

Lá dentro (vamos voltar), no balcão de madeira do bar, é nítida a quantidade de cervejas (principalmente Budweiser) e copos de Catuaba que saem, “Em todas as festas, o que mais sai é a Catuaba” diz a barwoman, que prefere ser chamada de Dani. É fácil entender o sucesso dessas bebidas pelo preço: uma cerveja long neck custa R$15 e o copo de Catuaba R$10, contra os R$30 do Pulso, um dos drinks da casa que mistura vodka, Red Bull Cramberry e laranja.

Independente do que você resolva beber, primeiro tem que ir ao caixa e comprar fichas que podem ser trocadas pelas opções do bar. Mas não se preocupe se não consumir todas as suas fichas: você pode pegar seu dinheiro de volta ou usar em outra festa.

“O pessoal na primeira vez acha um lugar estranho, mas é bem tranquilo”, me conta Dani enquanto atende as pessoas, “os drinks são ali, aqui é só pra retirar cerveja”.

 

(Créditos: Leila Fugii/O Beijo)

 

É só circular mais um pouco pelo espaço para encontrar uma porta tímida, aberta e coberta de luz branca. Curtiu muito a festa e quer registrar o momento pra sempre? Isso é possível com os tatuadores Fran Alós e Ygor Andrezo, que ficam disponíveis até as cinco da manhã nas festas da Metanol.

Os dois já chegaram a realizar quinze tatuagens em uma noite, e trabalham na festa há um ano e dois meses. A sala é coberta de flashes, tatuagens pré-definidas, mas a dupla pode até criar um desenho na hora dependendo do que o cliente quiser. “Se a pessoa quer tatuar o nome da mãe dela a gente tatua, mas não acontece muito” diz Ygor aos risos.

Para sair da Metanol com uma tatuagem, você vai embolsar no mínimo R$100, que podem ser pagos em dinheiro ou cartão. Na dúvida de que desenho eternizar na sua pele? “Sai muito tatuagem de planta e de planeta” conta Fran.

Os visitantes entram na sala para descobrir o que acontece lá e olham para os desenhos na parede, criando coragem para sair da Trackers com um desenho eternizado na pele. O movimento é tão bom que a dupla já chegou a tatuar até em festas da Metanol que aconteceram na rua.

 

(Créditos: Leila Fugii/O Beijo)

 

Quando você perceber, andou por um grande circulo de corredor e voltou para o lugar de início, uma sala com a palavra "Tropical" escrita em neon, sofás de couro e uma disputada mesa de pebolim.

As paredes tremem com as músicas sem letra, mas com batida de sobra enquanto as pessoas balançam o corpo e trocam a cerveja de mão, mas eu não chegaria a ser considerar isso uma dança. Talvez o clima de festa no apê, faça os frequentadores esquecerem que estão em uma balada.

Cabem cerca de 800 pessoas no grande apartamento, e podem acontecer festas paralelas no andar de baixo, dependendo do dia. O ambiente não é frequentado pelos novos universitários, que chegaram recentemente aos 18 anos.

 

(Créditos: Leila Fugii/O Beijo)

 

Agora são 1h30 da manhã e não para de chegar gente de todos os lugares. Dois amigos gringos entram timidamente no apartamento, enquanto um homem com sotaque carioca cumprimenta os caixas.

Os funcionários em sua maioria são tatuados e tem estilo parecido com as roupas que os rappers Drake e Kendrick Lamar usam no dia-a-dia. Muitos deles já conhecem o público cativo e se cumprimentam pelo apelido, fazendo piadinhas internas. Um deles é Bruno Moralles, que trabalha há um ano e meio na Trackers, "Somos uma família" me conta.

Diego Serafim que trabalha há quatro anos no espaço, se junta ao amigo para concordar que a melhor festa da casa é a Discopédia, seguida da Calefação. O segredo atrás do sucesso da Discopédia? Acontecer em um horário mais acessível, de terça-feira das 19h às 23h - horário em que as pessoas começam a sair de seus trabalhos - e sempre lotar. "Ferve em duas horas, a galera do Hip Hop é muito fiel" diz Serafim.

Mesmo com os frequentadores que "batem ponto" na casa, às vezes alguns visitantes são uma surpresa. “Semana passada a Penélope do Castelo Rá-Tim-Bum tava aqui” relembra Moralles.

Centro, caos e forma simples de anteder. Os caixas acreditam esse seja o segredo para cativar o público da Trackers, que "espera ser expulso" porque não querem ir embora quando o relógio marca seis da tarde.

Bruno termina nossa conversa com a melhor definição possível da Trackers: “aqui é o underground do undergound”.

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