"Aqui é uma casa de respeito"

Da esquerda para direita, Marina Caires, Berimba de Jesus e Janaína Abaeté, sócios do centro cultural Nossacasa Confraria de Ideias (Créditos do ensaio: Leila Fugii)

 

Em uma tarde ensolarada de abril (saudades), O Beijo deu um pulinho no centro cultural Nossacasa Confraria de Ideias para conversar com seus fundadores.O bate-papo com o escritor Berimba de Jesus e a designer de moda Marina Caires aconteceu sem muitas formalidades, na área externa do espaço.

A outra sócia da Nossacasa, a produtora cultural Janaína Abaeté preferiu ficar meio nos bastidores e participou somente do ensaio fotográfico. Na conversa que você confere abaixo, Marina e Berimba contam sobre a história e a “explosão” da balada na cena paulistana (lembra do inferninho aconchegante na rua Belmiro Braga em 2014? Pois é, o tempo voa).

Eles falam também sobre um ponto importantíssimo, como é promover o encontro de sujeitos e sujeitas distintos, prezando pela liberdade e respeito (ô desafio). Sem mais, vamos à entrevista.

Boa viagem à casa das folhas gigantes de filamentos verdes, alaranjados, vermelhos e amarelos que respira e transpira no número 1.032 da rua Mourato Coelho, Vila Madalena.

 

O centro cultural é repleto de intervenções artísticas, tem uma boa relação com artistas urbanos 

 

O Beijo: Onde vocês se conheceram?

Berimba: Conheço a Marina há mais de dez anos. A gente sempre esteve ligado a esse mundo artístico. Ela com a moda e eu com os trampos da poesia. Meio que a rua fez a gente se encontrar. Alguns anos atrás, fui trabalhar no Zé Presidente e ela também. Eu era gerente e ela tinha a loja, fazia a festa Dionísiaca. Para economizar com transporte, a gente decidiu alugar uma casa perto. Foi a primeira Nossacasa. A ideia era a gente morar mesmo, mas começamos a fazer festas. A primeira foi por conta dos nossos salários estarem atrasados. A gente precisava de dinheiro para pagar o aluguel, então fizemos a “Intera para o aluguel”. Era cinco reais a entrada. Fizemos um pedido de bebida mínimo.

Marina: Tinha um barzinho na lavanderia.

Berimba: A gente tirou todas as coisas dentro da casa. Jogou tudo para dentro do meu quarto.

Marina: Ficava tudo amontoado.

Berimba: O Maca, que é um camarada nosso, dizia: “Venho nessa casa e durmo em um quarto bonitinho. Chega a noite o quarto vira um bar. Como assim?! Estava dormindo no bar?”.

 

No dia 24 de junho, o Nossacasa completa 5 anos 

 

O Beijo: A festa deu certo e vocês ficaram animados?

Marina: A gente se empolgou. Fazia um por mês, depois quinzenal, semanal, depois todo dia. Quando fomos ver, já tinha virado uma balada.

Berimba:  A gente saiu do Zé Presidente e começamos a nos dedicar só à Nossacasa. E o nome vem por isso. Que nome a gente poderia dar...

Marina: Pra nossa casa.

Berimba: Aí ficou Confraria Nossacasa.

Marina: Confraria das Ideias.

Berimba: Essa é a terceira casa que a gente está. A primeira, a da (rua) Cardeal Arcoverde, nós saímos porque era uma residência e não uma balada.

Marina: O dono foi muito gente boa, até tentou negociar com a família dele pra gente legalizar e virar um estabelecimento. Mas não conseguiu. Era uma casa muito velha e pequena também. Só tinha uma saída.

 

"No Nossacasa, nos não trabalhamos somente com festas. Englobamos outras linguagens artísticas, com poesia, figurino", Marina Caires
 

O Beijo: Como vocês foram para segunda casa?

Marina: Por conta dessa situação. Fomos para (rua) Belmiro Braga. Não queríamos sair da Vila Madalena. O público já estava acostumado. Ficamos lá dois anos. Foi bem legal, adaptamos à casa. Fizemos bastante evento, mas no final tivemos problemas. Desde o começo fomos perseguido pelos vizinhos moralistas.

Berimba: Eles disseram que o lugar era puteiro. Tinha uma batalha de Mc's na praça em frente à casa. Eles foram expulsos de lá.  Nós acolhemos a ideia e levamos para o Nossa Cassa. Os vizinhos agiram de novo e disseram que tinha virado ponto de tráfico.

Marina: Não virou, mas na ideia deles, tinha virado. Como a gente trabalha com a expressão da nudez, tinha o Sarau Erótico e, às vezes, as pessoas iam fantasiadas, eles ficavam chocados. Taxavam a gente de ponto de tráfico e puteiro. Mas nunca entraram na casa. Denunciaram a gente até conseguir nos tirar de lá.

Berimba: Teve outros empecilhos também. Nós éramos marinheiro de primeira viagem, não sabíamos várias coisas sobre a burocracia, de onde poderíamos ter um lugar de atividade comercial. A rua lá, apesar de a área ser mista, não permitia baladas. 

Marina: A gente tentou tirar o alvará para conseguir trabalhar tranquilo, pra mudar a arquitetura da casa, porque não tinha como mudar a arquitetura da rua. Mas não conseguimos evoluir nessa questão, da legalização. Então, para não ficar refém disso, de ser fechado, nos mudamos para (rua) Mourato Coelho. Aqui, a gente já entrou preparado, já pesquisou antes de alugar a largura da rua, se a zona era permitida.

 

Berimba de Jesus, um dos fundadores do espaço, é produtor cultural e poeta

 

É um dos integrantes do coletivo Poesia Maloqueirista

 

O Beijo: Na Belmiro, a casa explodiu na cena paulistana? Como isso aconteceu?

Berimba: Tem alguns fatores. Tem a articulação nossa mesmo. Eu, como poeta, circulei muito na rua. A Marina, como artista, também.

Marina: Fiz festas em bastantes lugares. Já conhecia muita gente.

Berimba: A outra é a mídia social. Modéstia parte, a gente faz uma boa mídia social.

Marina: A linguagem é diferenciada.

Berimba: E tem o lugar, a ideia era criar um espaço que não tivesse cara de balada.

Marina: É como se você estivesse na cara de um brother.

Marina: Tem também os temas. Nós trabalhamos com  liberdade de expressão, erotismo e poesia. A gente fala da cultura afro, da cultura paraense. Tem a festa Dionísiaca. Ficamos inventando cada vez mais e misturando cada vez mais culturas. A diversidade de linguagens ajuda bastante a chamar atenção não só de um público específico, mas de vários públicos.

 

Marina Caires é multiartista. Além de gerir a Nossacasa, também é dj

 

O Beijo: Como foi a construção da persona de vocês nas redes sociais?

Marina: Na real, a gente nem ficou olhando as outras baladas. A gente foi desenvolvendo. Eu faço as montagens no Photoshop, aí o Berimba tem a linguagem da poesia. A ideia é sempre não ser tão comercial.

Berimba: De certa forma, o Zé Presidente nos deu uma base. Porque lá, a gente fazia programação, fazia mídias sociais, fazia caixa.

Marina: Quando você faz tudo, você acaba aprendendo também. Foi tipo uma escola. No caso, a nossa linguagem é bem diferente do Zé. A questão era mesmo mostrar para o público através das imagens o tema da festa. Que eles viessem no intuito de ouvirem o tipo de som estávamos propondo.

Berimba: Em algumas festas, a gente fazia também ensaio fotográfico.

Marina: No começo, fazíamos muito vídeo, teaser. Agora, fazemos bem menos, mas acho que ajudou muito, desenvolveu a linguagem e ajudou a divulgar bem a casa.

 

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O Beijo: Como é conversar com diferentes tipos de público?

Marina: Continuamos atraindo aquela galera do começo, mas a diferença é que aparece mais gente. Isso, porque a gente abre muito mais vezes. Na outra casa, era de quarta à sábado. Aqui, é praticamente de segunda a segunda. Tem muita gente que fala: “Ah, antigamente, vinha uma galera mais tal”. Antigamente, o que acontecia era que a galera era mais fechada. Era meio panela. Vinha muito amigo. Agora, vem gente de tudo quanto é tipo. Mas, ainda assim, nós direcionamos muito nosso público nas mídias sociais.

 

Janaína Abaeté entrou para o centro em 2015

 

O Beijo: Vocês cresceram segmentando então?

Marina: Sim, acho que segmentar ajudou bastante para vim todo tipo de gente. Não vem sempre as mesmas pessoas. O que na real foi uma grade vantagem, estamos conseguindo nos manter. Antes, era muita panela, mas, amigo não paga conta. Amigo quer entrada vip, quer beber de graça. Quando você segmenta, vem os amigos de seus amigos, gente que você não conhece e isso que é legal.

Berimba: Aqui, estamos no meio dos pica grossa. Tem bares que faturam 3 milhões de reais por mês. São figuras que já estão consolidadas nesse mercado de bar. Tem apoio de cervejaria, de outras marcas de bebidas. Nós não temos esse apoio. Entramos nessa casa devendo o aluguel. Nosso plano de negócios foi ação e emoção. Nada como um dia após o outro. 

Marina: Todo mundo pode entrar, mas têm que respeitar. Aqui é uma casa de respeito. Tudo bem curtir o rolê, no entanto, o espaço de ninguém pode ser invadido. E a gente reeduca mesmo. Se alguém tenta pegar uma menina à força ou é preconceituoso, a gente chega e conversa. Se o cara continua desrespeitando, ele, felizmente, é banido da casa.

 

A produtora cultural é a nova responsável pelas redes sociais do centro cultural

 

O Beijo: Existe uma crença de que  quando a casa cresce ela se desvirtua. Vocês estão me dizendo que vão na contramão dessas ideia. Considerando isso, de que forma esse movimento, ajuda a furar “bolhas”?

Berimba: Eu acredito no termo de cultura provisória. Eu acho que a Nossacasa é um centro de cultura provisória. Ela está aberta a essas possibilidades, de choques culturais. Nós vivemos em um país jovem, de 500 anos. A internet chegou faz poucas décadas e tudo isso traz conflitos. O espaço está para esse choque. Até mesmo, a gente está pra esse choque. Eu não esperava que tivesse um espaço onde uma mulher trans ou homem se sentisse confortável para estar nu.

Marina: O que muitas vezes choca é um cara de roupa e atitude grotesca. A gente aprende todos os dias, com todas possibilidades que acontecem aqui dentro. Sentimos que temos uma missão incrível.

Berimba: É uma missão antropofágica. Oswald de Andrade trouxe essa ideia. O Zé Celso confabula com essa ideia. Acho que a Nossacasa vem como uma terceira fase que é reunir a galera, não pelo sexual, pela carne, o que importa  é o contato, é a troca, é o olho no olho.//f

Marina:É se sentir em casa e respeitar. No mundo, não existe só a gente. Essa questão da galera falar: “ – Ah, antes era legal porque só tinha a gente, é um egoísmo tremendo, porque não deixar entrar um playboy, uma galera da favela, uma trans, um hétero, uma lésbica. A ideia é que todos sejam bem vindos e que todos fiquem em paz. 

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