A incomunicabilidade onipresente e atual

Luciana Fávero e Marcos Breda em um dos vários momentos de embate de ideias na peça "Oleanna" (Créditos: Maria Júlia Lledó)

O dramaturgo e diretor norte-americano David Mamet não imaginou tamanho exercício de poder que um smartphone exerceria na sociedade quando escreveu a peça Oleanna (peça que entra em cartaz no dia 15/02, no Sesc Pinheiros). No entanto, o fato de inserir um telefone fixo no escritório do professor, como se fora um personagem a prestar um (des) serviço ao diálogo, parece premonitório. 

Enquanto a universitária intepretada por Luciana Fávero parece chegar a conclusões catárticas durante uma conversa com o professor que a havia reprovado, eis que surge o "trrrim...trrrim" ou o "zap zap" (na montagem do diretor Gustavo Paso) para romper qualquer possibilidade de resolução do conflito que se forma aos poucos no escritório do personagem de Marcos Breda. 

Cessada a interrupção, ainda assim, mestre e pupila não falam a mesma língua. Cada um tem seu próprio discurso, expondo-se ao "egocentrismo intelectual" conceituado por Piaget. Não há diálogo.

Como em um jogo de tênis, o público vira a cabeça para acompanhar a rápida troca de ideologias que saem do campo de um para o campo do outro. Quem estará com a razão? Ou será possível dar razão a somente um deles?

Ela julga o professor um "equivocado" nas aulas e no próprio livro que ele escreveu, inserido como referência bibliográfica das aulas. Para ela, o professor vomita prolixidade e escorrega em pedantismo e machismo. Ao adotar um tom e comportamento machistas, abusa principalmente, das mulheres que assistem à aula. 

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O professor, no entanto, não se mexe da confortável poltrona a não ser que seja para atender a mulher ou o advogado, claro, ao telefone. Está ansioso pela compra de uma nova casa. Algo que poderá ser realizdo assim que for promovido pelo conselho acadêmico. Somente depois disso, ele elabora um raciocínio, qualquer que seja, a fim de derrubar as acusações da aluna.

Ao final, não é possível tomar partidos. Ora aluno, ora professor, o espectador sente apenas que aquilo não vai acaber bem e que algo de muito grave emergirá em 15 segundos. Uma bomba-relógio que, na atualidade, se repete diariamente em instituições de ensino de todo mundo. Spoiler!! A próxima cena deste embate de discursos dissonantes causará espanto. 

Por isso, ainda atônito com o desfecho do placar professor X aluna, o público permanece por mais 15 minutos sentado. A pedido dos atores e do diretor Gustavo Paso, abre-se um debate sobre o que transcorreu ali, em pouco mais de uma hora no palco.

Entre idas e vindas de reflexões, Marcos Breda condensa os pensamentos ao citar a conclusão de um espectador que participou de outras discussões acerca da peça. "Sou responsável pelo que digo, mas não pelo que você entende". Forjado este cenário de cada um no seu quadrado, entre o mea culpa e o "foi mal aí, professor", um vão se abre cada vez mais fundo na educação ocidental.  

::SERVIÇO::

Oleanna
Dias: De 15 a 17/02, quinta, sexta e sábado, às 20h30
Local: Sesc Pinheiros
Ingressos: R$ 25,00 (inteira) R$ 12,50 (meia) e R$ 7,50 (carteirinha do Sesc)
Classificação indicativa: 14 anos
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