"A gente não precisa estar 'montada' para ser maravilhosa"

Larissa Ísis (Créditos: Luciana Tavares)

 

 

Em novembro, mês em que é comemorado o Dia da Consciência Negra, a coluna #Axé fala com  a fotógrafa paulista Larissa Ísis. Conheci seu trabalho quando uma das funcionárias da loja Animale, na rua Oscar Freire, foi denunciada por racismo (saiba mais aqui).

Larissa era uma das manifestantes no ato de repúdio. Tempos depois,  vi seus ensaios. Ela dedica seu olhar ao homem e a mulher negra, segmentos da população ora super expostos, ora inviabilizados. No bate-papo abaixo, a fotógrafa fala sobre  carreira, preconceito e provoca:"É preciso ir além do puro lacre".

 

(Créditos: Larissa Ísis)

 

AXÉ -- Quando você decidiu retratar pessoas negras?

LARISSA ÍSIS -- Sou nutricionista, então entrei no curso de fotografia com a ideia de fazer fotos de alimentos. Queria unir as minhas duas paixões. Durante uma viagem para Nova York, entretanto, fui surpreendida. Entre fotos do meu namorado, da cidade, percebi que tinhas muitas propagandas com negros. Em todo lugar que ia, era a mesma coisa. Como no Brasil isso não é assim, fiquei meio boba. Pensei depois: “Putz, já que ninguém quer fazer isso, por quê não faço?”.

 

(Créditos: Larissa Ísis)

 

AXÉ --Quem foi a primeira pessoa negra que você retratou?

LI -- Na verdade, o primeiro clique que eu fiz foi de mulheres negras Nova York. Eram três meninas no festival Afro Punk. Cheguei nelas, pedi. Só não fiz mais fotos, porque meu sapato estava machucando. Começou a doer para caramba e não aguentei.

 

Projeto Cansei, uma das iniciativas que Larissa toca (Créditos: Larissa Ísis)

 

AXÉ -- E como você trouxe essa ideia para o Brasil?

LI -- Comecei a convidar algumas pessoas para fazer fotos em locais públicos. No Instagram, postava as imagens para quem quisesse ver. De repente, um rapaz do Buzzfeed entrou em contato comigo e fez uma entrevista. A matéria teve repercussão. Ganhei 5 mil seguidores. Dois dias depois, a Elle Brasil também publicou minha foto. Houve um novo boom, ganhei mais três mil seguidores.

 

AXÉ -- A maioria das pessoas que te procuravam eram negras?

LI -- Sim.

 

AXÉ -- O que elas te falavam, considerando a falta e pouca diversidade da representação do negro?

LI -- Elas queriam se sentir bonitas. Muitas achavam que era as transformava, mas  dizia que não, elas eram maravilhosas naturalmente.

 

 

(Créditos: Larissa Ísis)

 

AXÉ -- Os homens negros também te procuram?

LI -- Sim, mas é nítido que no Instagram que quem mais curte as fotos são as mulheres. Mas é bom explicar, gosto de fazer fotos de homens. Eu os convido para fazer ensaios.

 

AXÉ -- Vamos hipotetizar, talvez essa ausência tenha relação com o fato de que homens normalmente não fazem ensaios, mas talvez se relacione ao foto do empoderamento negro estar hoje mais ligado às mulheres...

LI -- Com certeza, é mais relacionado a mulher negra e gays. Os homens... acho que não é exatamente isso, mas parecem não estar nem aí.

A mulher negra começou a perceber que é tão foda e que não depende de homem nenhum. Ela se autolibertou. As mulheres negras também estão ajudando a outra. Ela não está mais dando vez.

 

AXÉ -- Na sua produção, várias coisas se misturam: arte, modo e ativismo. Como você concilia isso?

LI -- Acho muito importante os ensaios mostrarem a beleza do negro, mas não acredito que seja só isso. Também publico fotos que mostram o cotidiano, pra exaltar a atuação diária. A gente não precisa estar “montada” para ser maravilhosa. Não é só puro “lacre”, é além disso.

AXÉ -- E como você lida com o preconceito?

LI -- Muitas vezes, a gente deixa de ir em um lugar, porque vem aquele pensamento: “Isso não é para mim”, mas não sei, acredito que é preciso mudar, pensar que a gente pode e deve ir. Hoje,  vou, recebo olhares e se olharem de novo, volto.

 

 

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