Um contêiner chamado teatro, uma praça para se chamar de porto

16 março 2017
Elenco de "Luis Antonio - Gabriela" se prepara no camarim desvelado para os transeuntes do bairro da Luz
(Créditos: Maria Júlia Lledó)


Durante séculos de comércio internacional, chineses, árabes e europeus perderam iguarias e relíquias ao transportá-las com pouca estrutura em seus navios. Até que em 1937, um norte-americano chamado Malcom Mc Lean, motorista e dono de uma pequena empresa de caminhões, teve a brilhante ideia de armazenamento e transporte em grandes caixas de aço que pudessem embarcar e desembarcar sem prejuízos. 

Exatos 80 depois, a Cia Mungunzá de Teatro ressignificou tal engenhosidade. Para isso, abasteceu 11 contêineres marítimos com relicários pessoais e pedaços de uma história, que já leva mais de uma década, para aportá-las numa praça à deriva, no bairro da Luz. Inaugurado dia 11 de março, esse novo espaço cultural em forma de caixa metalizada, cercado por coloridos tambores abrigados em um jardim, convida moradores do bairro, artistas, curiosos (me incluo) e turistas a visitá-lo e, também, ocupá-lo.  

Interessante que, apesar das imensas caixas terem sido historicamente criadas para conservar e delimitar conteúdo, os contêineres da Mungunzá foram feitos para transparecer o que há dentro. Por janelas de vidro e escassas persianas, sou voyer. Vejo os atores se maquiando no camarim, que fica no segundo andar,  e aquecendo voz e corpo no palco, no térreo do espaço.

"Riscamos um fósforo e ainda não sabemos onde ele vai cair", Verônica Gentilin (atriz)

Tudo é, gradualmente, desvelado, aproximando elenco e plateia. Relação que, aliás, se estreita pela escolha do espetáculo que abre as portas do novo teatro. Construído a partir de relatos, documentos e cartas do ator e diretor Nelson Baskerville,  Luís Antonio Gabriela desnuda a história de seu irmão Luis Antonio. Do nascimento de Tonho até o ano de 2006, data de sua morte na cidade de Bilbao, na Espanha. 

Baskerville, que trabalha com a Cia. Mungunzá desde o início das atividades do grupo, em 2006, assina em conjunto com os atores Marcos Felipe, Lucas Beda, Sandra Modesto, Verônica Gentilin, Virginia Iglesias e Day Porto o documentário cênico que já recebeu diversos prêmios. Entre eles, o Shell e o APCA, o da Cooperativa Paulista de Teatro e o Prêmio Governador do Estado de São Paulo.

Durante a peça, um homem do alto dos seus 70 anos para em frente ao portão vazado da Rua dos Gusmões 43. Estático, observa a vida de Luís Antonio Gabriela pela janela. Do nascimento às primeiras descobertas do corpo e do gênero, passando por estilhaços de dores, abusos e beijos partidos.

Luís Antonio soma-se a Gabriela e mimetiza o mesmo jogo de mostra-e-esconde dos contêineres. Ficamos todos, atores e público, estimulados pelas diferentes linguagens de que se vale o grupo para nos contar esta história. Música, reprodução de imagens, letreiros, telas de pintura e outros elementos trabalham com nossos sentidos e nos transportam por diferentes emoções. 

Tudo que estava até então contido resvala. 

Tudo se encontra, tudo se ocupa e tudo passa a fazer sentido. 

Ao final da peça, escuto a atriz Verônica Gentilin sintetizar em uma frase o que havia acontecido ali. "Riscamos um fósforo e ainda não sabemos onde ele vai cair". 

Sorrio...

Só sei que se fez uma nova Luz.


A CIA MUNGUNZÁ DE TEATRO ESTÁ PROPONDO À CIDADE DE SÃO PAULO UMA NOVA ÁREA ARTÍSTICA E DE CONVIVÊNCIA

Através de uma parceria, a ser oficializada mediante um “Termo de Cooperação” junto ao Poder Público Municipal, a Cia Mungunzá de Teatro pleiteia o lote localizado na Rua dos Gusmões, número 43, Santa Efigênia, pelo período de 3 (três) anos, para implementação de inúmeras possibilidades artísticas no local.

O terreno pleiteado pelo Grupo era mais um dos “vazios urbanos” da nossa cidade - um espaço público com extremo potencial, mas que se mantinha sem destino público aparente. A Cia Mungunzá de Teatro utilizou seus recursos financeiros, fruto de oito anos de atividades (aproximadamente 270 mil reais), para implantar um projeto que funde as necessidades e interesses sócio-político-culturais da cidade. 

O espaço até aqui construído preserva grande área livre e abriga o agrupamento arquitetônico de dez contêineres, que funcionam como sede e acolhem o funcionamento das mais diversas manifestações artísticas, como a realização de pequenos shows, apresentações teatrais, projeção de filmes ao ar livre etc.

Nosso coletivo, com esta atitude, uniu-se àquelas pessoas/grupos que auxiliam o Poder Público na manutenção de áreas de lazer, esporte e cultura, contribuindo com o exercício de um novo olhar para a democratização dos espaços públicos. Desejando uma cidade mais humana e mais plural, e, de quebra, conquistando a autonomia de destinar verbas antes direcionadas à alugueis, ao desenvolvimento artístico de um todo, possibilitando uma existência mais sólida e duradoura.
 

Este espaço é da Cidade ! Este espaço é seu ! Tenha sobre ele o sentimento de pertencimento ! Comemore conosco essa iniciativa e não deixe que este terreno tenha retrocessos quanto a sua utilização !

Evoé !
Cia Mungunzá de Teatro
Cooperativa Paulista de Teatro

(Fonte: www.ciamungunza.com.br)

SERVIÇO
LUIS ANTONIO GABRIELA
Quando: Até 19/04, sexta, sábado, domingo e segunda, às 20h
Local: Teatro de Contêiner Mungunzá, Rua dos Gusmões 43, Luz (próximo à estação Luz de metrô)
Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00
Classificação: 16 anos

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