Sororidade: é para comer ou passar no cabelo?

28 agosto 2017
Tempo favorável, gente elegante, sincera e um monte de pontos de interrogação na Casa TPM 2017 (Crédito: Maria Júlia Lledó) 

Até meados de 2016, a definição do termo SORORIDADE não constava nos mais importantes dicionários da língua portuguesa. Tida como sinônimo de fraternidade, esta palavra abarca muito mais intensidade que aquela usada para definir um universo masculino. Soror (irmã) e ade, sufixo empregado para formar substantivos, definem juntos uma aliança feminina baseada em empatia, força e companheirismo. Mais uma vitória das mulheres que conservadores do mundo léxico tiveram que engolir e digerir.

Foi essa palavra, aliás, que eu escolhi para me inscrever na Casa TPM 2017. Evento realizado há cinco anos pela primeira revista do país a levantar a bola e bater pro gol questões e indagações femininas desde 2001. Por isso, durante os dias 26 e 27 de agosto, num casarão antigo do Pacaembu, editei a melhor versão de mim mesma para encontrar mulheres que tanto admiro. Caso da filósofa Djamila Ribeiro,  da atriz Clarice Niskier , da astróloga Maína Mello e de tantas outras que fizeram parte das rodas de conversa, workshops e palco do último fim de semana. 

"Ser empoderada não é ter os privilégios dos homens brancos. É triste ver um conceito tão bonito como esse sendo esvaziado, muitas mulheres acham que ser empoderada é ser CEO de uma empresa, mesmo quando estão oprimindo outras pessoas." (Djamila Ribeiro)

Ouvi relatos de assédio e de relacionamentos abusivos narrados pela atriz Monica Iozzi e pela cantora Ana Cañas; preconceitos varridos para fora do tapete no depoimento da atriz Bruna Linzmeyer; vidas marcadas por opressão e dores profundas desabafadas pela professora Diva Guimarães. Mas também ouvi depoimentos de superação e de amor próprio; confrontos e atos de coragem, ou de pura desobediência, vindos de mulheres que seguem em busca da própria verdade.

Mesmo inspirada por todas as convidadas que imprimiram suas histórias ao longo de dois dias de programação, algo me incomodou: e aquelas mulheres que estava sentadas ao meu lado ou que por mim passaram pelas escadas e pelo jardim do casarão? Quem eram elas e o que buscavam ali? Foi nessa hora que senti: a sororidade descrita ali em cima inflava e esvaziava como se fora um balão, toda vez que eu entrava e saia de algum debate.

Me dei conta de que mesmo que estivéssemos todas naquele espaço seguro para nos desnudar, muitas ainda se olhavam da cabeça aos pés, julgando-se. E nossa aliança? Para onde vai, quando estamos fora de eventos como esse? Será que ela esbarrou na inveja, no ciúme ou no preconceito? E de que adianta participar de eventos inspiradores se ainda sinto cobrança e raiva entre mulheres que estão ao meu redor?

Por que ainda escuto de tantas: "é mais fácil trabalhar com homem porque eles são práticos"; ou "imagina namorar uma mina, mulher é instável e dramática"; e até mesmo, "prefiro ter amigos homens porque eles não ficam de mimimi". Pois é. Isso é real, está acontecendo agora e me tira o sono.

Indagações como essas pipocaram na minha cabeça durante o fim de semana ao notar que, mesmo ali, eu podia constatar este tipo de comportamento. É que pagar de feminista, passar batom vermelho e vestir a camisa "da causa", não tem qualquer sentido se não houver conteúdo e prática. Se não passar pelo reconhecimento e pela identificação com o fato de que todos os dias somos e nos tornamos mulher.  

Por isso, não vou cultivar raiva, nem inimigas.

Ou mesmo dizer que ela ou aquela é um blefe. 

Vou continuar abraçando novas amizades e boas relações com mulheres que saibam que se essa nossa aliança não for da boca pra fora, o FUTURO SERÁ, com certeza, FEMININO. 

Mais amor (entre as mulheres), por favor! (Crédito: Maria Júlia Lledó)

 

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