O idiota e a identidade

9 novembro 2017

Antes de começarmos, acho válido dividir alguns pontos sobre este espaço de troca. Em minha coluna me proponho a me corresponder com todos os aqueles que podemos chamar de Criativos. Sejam estes atuantes nos mais variados campos: design, arquitetura, música,
literatura, cinema, teatro, artes plásticas, entre outros - sem esquecer daqueles que os cercam, mas que não estão totalmente inseridos nestes mercados. E para fazer isso de maneira organizada, partirei sempre de algo posto a respeito do tema que eu trouxer - que  possivelmente será algo que me incomoda -, para daí então partir para a reflexão. O tema dessa semana é Identidade.

Da Wikipédia adaptei a afirmação de que identidade é o conjunto de caracteres próprios,
através dos quais é possível diferenciar coisas e pessoas. Isto posto, disparo o ponto crucial
para esta reflexão: a identidade, tendo como objetivo pontos de semelhança, produz naturalmente o diferente. Sendo assim, reflito que só a partir do diferente que é possível identificar o semelhante, uma vez que dois semelhantes isolados, são por essência, diferentes. Parece cabeçudo, eu sei. E é mesmo. Pois, o fato que eu quero relacionar aqui é essa relação confusa da Identidade e Estilo - uma vez que a partir do estilo se dá os signos de identidade, para então fazer a associação desses dois com o mundo da arte.

Dito isto, é importante pensar que a velocidade com que as coisas se movem, hoje em dia, nos obriga a acompanhar o que acontece pelo mundo em um ritmo muito além da capacidade  física humana. As referências, os exemplos, os processos, os suportes e outros são despejados nos nossos boards aos milhares.

Então, “como absorver todos esses signos? Como lidar com essa quantidade de informação? Como, ao menos, ordenar isso?” são questionamentos frequentes. Na mesma proporção, sinto que há um inconsciente coletivo clamando a todo momento pelo novo, pelo diferente, pela vitória diante de todos. E é nessa armadilha que se encontram vários Criativos atualmente - ouso afirmar que principalmente os mais novos.

Faço tal observação, e me refiro a esses jovens com maior zelo, devido a responsabilidade que tenho no trabalho que desenvolvo a frente de uma galeria de arte contemporânea que tem por essência trabalhar jovens artistas com carreiras em processo de construção. Quase um sopro de Mário de Andrade.

Em minha carreira de galerista observo que na busca pelo Novo, a Identidade não pode ser um processo restritivo. Deve nascer de um ciclo incessante de construção, leitura, interpretação, desconstrução e reconstrução. A Identidade há de ser o reflexo de um longo processo de busca por identificação real no trabalho. A obra há de refletir com o tempo o que é o artista e a identificação do autor na obra deve-se partir de fora pra dentro. Sabe aquela sensação de satisfação que a gente tem ao encontrar uma obra sem os créditos e ela é exatamente do autor que imaginamos? É a Identidade dentro de um Estilo que nos permite isso, por exemplo. 

Então, acho importante ressaltar o óbvio: forçar uma Identidade para chamar de sua, desde o primeiro momento vai na contramão do que se espera de um Criativo. Sendo assim, é para a importância do diferente que me volto. O diferente que incomoda, que movimenta, tira o artista do centro e o empurra para o lado. É interessante notar que a partir de alguns desdobramentos etimológicos chegamos ao grego idios que se refere a “mesmo”, “si próprio”, e a seu derivado “idiota” - que indica depreciativamente, entre outros, a impossibilidade de um indivíduo atuar além de seu meio. A Identidade está vinculada a repetição, manutenção e tem tendência conservadora.

A forma como se tem tratado questão da identidade mascara vários problemas que essa prática incorre sobre a produção artística e que é preciso reflexão. Não estou por negar as beneces de se ter um trabalho identitário, mas a orientar a postura crítica e reflexiva dos criativos em relação a esta mesma questão.

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