O assombro de ser mais rato que humano

9 novembro 2017
Os detalhes da cenografia assinada pelo Grupo Redimunho é um dos pontos altos dessa imersão cênica
(Créditos: Katia Kuwabara)

 

Numa segunda-feira à noite, a ameaça de trovões interrompia o silêncio do lado ímpar da Rua Álvaro de Carvalho, Centro de São Paulo.

Ingressos na mão.

Logo mais, um grupo de 15 pessoas seria recepcionado no Hotel Cambridge, que já foi símbolo de luxo na capital paulista, inaugurado na década de 1950 e abandonado em 2012. Um dos hoteis mais glamourosos da cidade, frequentado até mesmo por Nat King Cole, ostentou por décadas a placa BAR É CULTURA. FREQUENTE-O, e hoje abriga centenas de trabalhadores sem-teto e refugiados.

Aliás, o Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC) deu as mãos ao Grupo Redimunho de Investigação Teatral  ao ceder parte das dependências da ocupação para a realização da peça Siete Grande Hotel - A Sociedade das Portas Fechadas.

Do lado de fora, não sabemos ao certo o que encontrar lá dentro. Serão duas horas de experiência.

Somos guiados por um concierge. É ele quem abrirá as portas de cada um dos sete quartos, onde acontecerão sete diferentes esquetes costuradas pelo fio da exclusão e do abandono. De mineradores enganados por falsas promessas e bandeiras a soldados traídos por uma ilusão de vitória em meio a corpos mutilados.

Caminhamos pelos porões do hotel e nos damos conta de que não sairemos do mesmo jeito que entramos.

Algo cheira...

Machuca...

Se esfrega na nossa cara enquanto prestamos atenção aos relatos. 

Os personagens saem das vísceras de cada ambiente onde nos sentamos. Eles e elas vão se mostrando cada vez mais brutos, raivosos, ensanguentados. Mais reais que o real que se apresenta todos os dias nas ruas e rincões do Brasil. Mais reais que o real que não olhamos fundo nos olhos. 

O desconforto vai abrindo espaço enquanto nos direcionamos para os últimos quartos. E o concierge veste-se de esquizofrenia... Todos vestem apenas um sapato.  Pisam pela metade: estão e não estão; pertencem e não-pertencem; vivem e sobrevivem.

Tudo está à beira de...

E para além da escrita política e poética de Rudifran Pompeu  - que também assina a direção -, o figurino, a luz e o cenário orquestram cada pelo que arrepia... E a ânsia nos ronda nos últimos momentos dessa experiência cênica.  

Já era tarde demais pra dizer: "Não vou conseguir. Posso voltar?". 

Se no ato final não chegamos a nos dar as mãos é porque A sociedade das portas fechadas  já se acomodou dentro de cada um dos 15 que entramos no Hotel Cambridge, naquela segunda-feira.

E o pior assombro é perceber na fantasia que hoje somos mais ratos à espreita que seres humanos de prontidão. 


 

Siete Grande Hotel - A Sociedade das Portas Fechadas

Quando: De 8/04 a 30/07, domingos, às 19h, e segundas, às 20h 
Local: Hotel Cambridge, Rua Álvaro de Carvalho, 75 Centro - Centro São Paulo - SP 
Estação Anhangabaú (Metrô - Linha 3 Vermelha)
Ingressos: Pague quanto puder - somente dinheiro (40 lugares)
A bilheteria abre uma hora antes do espetáculo (não há reserva ou venda prévia)
Classificação indicativa: 14 anos

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