Na arte, questionar, experimentar e vivenciar são fundamentais

18 outubro 2017

Da filosofia extraí a ideia de que para os seres humanos a razão é o centro do universo, mas se pensarmos um tanto, é fácil concluir que o universo existe muito antes dos humanos e vai muito além deles, sem se preocupar com razão nenhuma. Em toda nossa capacidade, nós conseguimos racionalizar somente o óbvio - haja visto essa atual incapacidade de abstração da sociedade. O fato é: existe muito além desse campo racional.

Uma vez dito isso, vale se questionar: será daí a ideia de que há algo de sublime na arte? Eu, particularmente, adoro a definição que Ferreira Gullar deu de que “a arte existe porque a vida não basta”. Isto posto, elevamos a obra e o seu criador a posições de destaque, independente da vertente de seu trabalho - tendo uns mais apreço, outros menos. Portanto meu caro, esse seu primeiro quadro não necessariamente é uma obra de arte, e você não é necessariamente um artista. Nem mesmo se todos seus amigos e sua família lhe disserem que seu quadro é lindo - ainda que seja de fato muito bonito. Isso porque um artista é feito de mais itens que não dependem apenas de sua criatividade ao fazer traços num papel.  

Digo isso, pois há uma falsa impressão de que todo mundo pode ser um artista, já que é ignorada a função da arte na vida. Isso sem falar também na tremenda falta de respeito para com aqueles que são “só artista” - como dizem os mais leigos. Esse tipo de mal entendido acontece porque muitos não imaginam que a profissão vai muito além da concepção e a produção das obras em si. Os artistas têm um olhar deslocado do senso comum. É difícil de perceber isso e não dá pra ser medido por um trabalho apenas. Costumo dizer que deve-se sempre duvidar de um artista, questionar, ver o quanto ele sustenta uma proposta e até onde ele é capaz de chegar com ela. A partir destas respostas e de sua consistência é que separamos os “até talentosos amadores” daqueles que nasceram para isso de fato.

Aliado a esses fatores subjetivos e dificuldades de compreensão de parte da sociedade, há ainda – pasmem -, o pragmatismo do mundo da arte. Sem dúvida, há coisas que só são possíveis de perceber após um longo tempo de dedicação a este universo. O reflexo do endosso por todo um circuito composto por diversos atores também é fundamental para um artista. Só a galeria não cria um artista visual, assim como só a mídia não cria um artista visual, ou o crítico, o curador. Sozinho não cria-se um artista visual. Ele é reconhecido como tal a partir de uma conjunção criada a partir destes e outros fatores.

 

Mas e agora?

Um grande problema para enfrentar esse pseudo-artista é que as pessoas tem receio de questionar imposições de parte do circuito, tem medo de questionar a galeria, medo de questionar a mídia, medo de questionar o mercado, e ao deixar de fazê-lo, permite-se a criação de uma legião de pseudo-artistas. Uma pena!

- Poxa, Thomaz, então o que é esse meu amigo que pinta maravilhosamente bem e tem um talento incrível?

Trago verdades e devo lhe dizer que por enquanto ele é só seu amigo que pinta maravilhosamente bem e tem um talento incrível. Mas entusiasta que sou, dou uma dica: com tempo e dedicação ele pode chegar lá. Mesmo que isso dê muito trabalho e exija que ele saia da zona de conforto de suas vivências, questões e experimentações o tempo todo.

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