Levanta, sacode a poeira e... faz tudo de novo

4 setembro 2017
Todo dia ela faz tudo sempre igual, mas esbarra na vontade de ser surpreendida pelo acaso (Foto: Maria Júlia Lledó)

 

Vamos falar das estreias... As prazerosas, claro! Nada de sobressaltos numa manhã de segunda-feira. Deixemos no criado-mudo o tal beijo, abraço e transa triunfantes que abocanharam o primeiro lugar no pódio da semana passada.

Não. Nada disso basta.

Vamos falar dos que vivem uma busca voraz pela sensação primogênita. Pela vontade de sentir, de ver, de ouvir, de tocar o desconhecido para, então, gozar o novo (de novo).

Para isso, alguns se desembestam como rês desgarrada em festas, bares ou mesmo shoppings. Compram, bebem e consumem com tal volúpia que alguns poderiam pensar: só pode ser o fim do mundo.

Insatisfeitos, provam todos os doces da confeitaria; deixam de pagar a conta da internet para comprar aquele sapato; gastam os últimos trocados da semana com bebidas e acepipes entorpecentes para, quem sabe, vivenciar qualquer-alguma-qualquer tipo mesmo de primeira vez.

Vamos falar dos que não aceitam ou não querem a mesmice de viver, todos os dias, a não-experiência da novidade. Daqueles que tomam remédios para a ansiedade e recusam qualquer proposta de estabilidade a longo prazo para aguardar - na corda bamba - o momento em que serão surpreendidos pelo inusitado: aquilo que os conduzirá a uma breve sensação de trinta segundos de torpor.

Mas, por que é tão difícil viver com o trivial? Por que parece impossível achar beleza naquilo que acorda, come, vive e dorme – como de costume – todos os dias?

Conduzidos por essa ânsia, muitos se esquecem da confortável presença da rotina que serve café e biscoitos pela manhã. Ou que, pela noite, nos cobre com um beijo na testa e um açucarado “durma bem”.

O mesmo cotidiano que nos toma pela mão ao atravessar a rua e que liga para dizer que horas vai chegar. A rotina irremediavelmente previsível e vazia de números primos.

Enquanto os protagonistas dessa história não encontram paz do dia a dia, eles e elas deixam-se levar pelo sonho de acordar diariamente no set de filmagem do último-capítulo-da-temporada-da-série-da-série-favorita. Ufa!

Até porque, se hoje não for um dia extraordinário, de que vale tanto empenho em ser você?

                                   Siga o tempo (Foto: Maria Júlia Lledó)

 

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