As razões por trás do meu (des) afeto

19 setembro 2018
Mariana Lima desafia razão e emoção no monólogo "Cérebro_Coração", em cartaz no Sesc Belenzinho (Foto: Leo Aversa)

 

Eu tomo 20 mg de Citalopram todos os dias. "É a dosagem mínima", disse minha psiquiatra.

E com esse remédio me equilibro na corda bamba da existência e da resistência às quais a atriz Mariana Lima refere-se em Cérebro_Coraçãoaula-espetáculo em cartaz no Sesc Belenzinho, até dia 23 de setembro

Para um público reduzido, numa sala de teatro intimista, é apresentado o cérebro: um órgão cujo apelo visual é nitidamente encarado com certa vergonha. Gera-se uma timidez ao vê-lo ali,  solitário, morto e despido, sem cerimônias, pela professora-atriz.

O texto, também escrito por Mariana, parece jogar luz sobre o órgão, mas não é para ele que voltamos nossa atenção. Como se neurônios e sinapses servissem apenas para orquestrar os verdadeiros protagonistas em cena: as emoções. 

Entre explicações que partem do arcabouço da neurociência, farmacologia e psiquiatria, a atriz cita passagens de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, costurados por observações e recordações. Há 14 anos, um trauma colocou a atriz no tabuleiro dos antidepressivos: uma depressão pós-parto da primeira filha, seguido pela perda do irmão, morto num acidente de carro. Mas nenhum desses episódios ganha palavras na encenação. Eles servem muito mais como gatilhos para questionamentos que pululam ao longo da peça e vão parar no estômago dos espectadores. 

Fechamos os olhos, a pedido da professora-atriz. Sentimos que nossos órgãos flutuam, sem contornos, limites ou pele para detê-los. Vibramos em uníssono. E deixamos que nosso intelecto repouse. O que resta é aquilo que temos medo de ver.

E assim, vagamos ao longo da aula-conferência, costurando pensamentos, referências e ações levadas ao tablado.

Mas a luz acende. E, novamente, somos conduzidos por uma estrada em que o raciocínio lógico descarrila... 

Eu tomo 20 mg de Citalopram todos os dias. "É a dosagem mínima", disse minha psiquiatra. 

Ora sinto, ora só me entrego ao balanço do ir e vir.

O cérebro. Ah... Esse órgão lindo...  

Quando ele para de funcionar, mesmo que o coração lateje, já estamos mortos. 

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