Artista é (quase) livre pra fazer o que quiser

23 novembro 2017

Só para que entendam o contexto, estava eu na galeria em que atuo, em um dia de entrega de obras do Clube de Colecionadores que promovemos. Este é um evento super intimista, com poucas pessoas e que é uma ótima oportunidade para os membros participantes receberem os trabalhos das mãos de quem o produz. Por ter essa característica “olho no olho”, percebo que os artistas que participam ficam ávidos por essa troca, afinal não são muitos os momentos que eles têm a chance de receber um feedback imediato.

Entre uma conversa e outra, a escolha das obras que serão levadas para casa acontecendo, tudo dentro do processo normal até que o que o artista convidado diz super entusiasmado:

- Vou começar a fazer alguns retratos por encomenda.

- NÃÃÃÃO ! Não faz isso.

Instintivamente respondi. Confesso que até tinha um ar de desprezo notável pela voz fina que marca esse tipo de tom, e continuei.

- Isso não é bem visto no circuito. Você vai manchar sua carreira e você nem construiu ela ainda. Daqui a pouco vai ter que ficar justificando porque fez isso, porque fez aquilo, querendo tirar isso ou aquilo do portifólio.

Surpreso e determinado em ao menos fazer pensar, ele me encurrala.

- Ué, não entendo. Então quer dizer que o artista não é livre pra produzir o que quer?

- É…

- O que é isso então? Ele é livre pra fazer o que quer, desde que ele queira o que o circuito quer pra ele?

- Não é bem assim - respondi tentando ganhar tempo, mas não tive argumentos para rebater de bate-pronto.

- É que você não acordou querendo fazer o retrato de alguém que você nem conhece, só pra  enfeitar o quarto dela. De cara, você já está abrindo mão da sua poética.

- Que poética? É um retrato. Técnica! Técnica de desenho.

- Ah, se você cuidar de como comunicar isso, até pode ser que funcione.

- Quer dizer que se eu enganar o Mercado, aí funciona ?

Neste momento, tenho certeza que dava para ver a minha cara de interrogação e o artista continuou.

- Preciso fazer. Preciso de grana. Estou pensando em fazer alguns trabalhos comissionados para empresas também.

Socorro. Não creio que estava ouvindo isso.

- NÃÃÃÃO! Não faz isso. Isso não é legal…

- Porque não é legal? O artista não é livre? Vai dizer que o Mercado também não gosta disso?

- É… não gosta!

- Não entendo – e continua - eu preciso vender. Estou pensando em vender umas obras minhas pelo meu Facebook.

- NÃÃÃÃO, pelo amor de Deus. Não faz isso. Vai virar bagunça. Vai parecer que está desesperado.

- É, mas eu to bem aflito com isso mesmo.

- Não é legal você ficar negociando seu trabalho. Existe um agente por trás fazendo isso por você. Lembre-se que o circuito de artes é feito por endossos e a galeria é um dos elos.

- Não entendo. Pensei também em licenciar meu trabalho para estampar alguns objetos, mas imagino que você já vai dizer que eu não posso.

- Pelo amor de Deus, não faça isso! Vai virar o Romero Britto. Caneca, camiseta, caderno, boné, etc, não são suportes para arte.

- Não entendo. Recebi um convite para expor alguns trabalhos no Shopping... - o interrompi.

- NÃÃÃÃO, não faz isso. Baita desperdício de energia e vai ficar igual aquelas churrascarias com o quadro e um papel colado com durex com o valor da peça.

- Ué, mas se eu não colocar em algum lugar, dentro do meu ateliê ninguém vê.

- É… isso é.

Fica evidente que a liberdade mercadológica - se é que ela existe - nem sempre vai de encontro com a liberdade que o artista tem quando não está inserido nele. Uma coisa é fato: o mercado tem regras. Eu mesmo abro mão de “oportunidades e ações” que poderiam me dar um retorno imediato. Isso é estratégia e ela nem sempre é livre. Até que ponto você está pronto ou preparado para fazer concessões?

 
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